16 de agosto de 2007

Mudanças (2a. edição revisada e ampliada)

Minha família não tem sangue cigano... mas somos um pouco nômades. Além de Curitiba, onde eu moro há 6 anos, já morei em Pato Branco (onde eu nasci), em Boa Vista (Roraima!!!), em Erechim e, de novo, em Patópolis.

A primeira mudança de que me lembro foi uma festa. Em 1986, nós estávamos deixando o térreo da casa dos meus avós (era quase um prédio aquela casa, de tão grande) e fomos viver na primeira casa própria que meus pais compraram. Eu tinha 6 anos de idade e o que eu lembro do "dia da mudança": o almoço. Acho que era sábado, mas pode ser que não. Almoçamos na entrada da casa, entre os móveis que ainda não estavam devidamente aconchegados no interior da casa recém-pintada. Frango assado, comido com as mãos, porque os talheres estavam perdidos sei-lá-onde. Uma festa. Lembro ainda que encontrei no quartinho da garagem uma pequena bola de plástico verde e branca (provavelmente de alguma criança coxa branca, mas acho difícil, Patópolis é gaucha, o povo lá só pára se for Grenal).

Eu adorava aquela casa. Ela fica na mesma rua onde meus pais moram hoje, vejam vocês. Eu tinha um quarto só meu, nós tinhamos o "quarto da bagunça", a sala de som e cortininha franzida na cozinha. Meu aniversário de 7 anos foi nessa casa, e a festa foi muito legal. Uma vez, arrumei uma briga com a molecada do bairro, e eles vieram fazer as pazes cantando uma música da Xuxa e fazendo coreografia. Foi a única serenata da minha vida.

Mas no mesmo ano meus avós foram para Roraima, e nós voltamos a morar na casa deles, desta vez no andar superior. Eu adorava aquela casa também. A rua era tranqüila, eu vivia correndo com os vizinhos. Cada dia nos reuníamos na casa de um de nós, quando não ficávamos brincando pela rua, mesmo. O quintal era enorme, e totalmente tomado pela horta e pelo pomar. Cenouras e salsinhas conviviam em paz com caquis e ameixas de inverno, mas acho que não gostavam muito da turminha bagunceira que pisava nos canteiros e subia nas árvores, para brincar de "apartamento" nos galhos da ameixeira. A escadaria tinha degraus largos que viraram quartos de dormir quando brincavámos de casinha. E a despensa era uma ótima sala de aula.

Então, em 1990, seguimos meus avós para Boa Vista. Lembro bem da viagem, 17 dias de carro, um Voyage branco: boiada no Mato Grosso, calor insuportável provocando insônia em Rondônia, a viagem de barco Porto Velho-Manaus que durou cinco dias e a má impressão que nos causaram os restaurantes de Manaus. Eu também gostava muito da minha casa em Boa Vista, principalmente do quintal. Oito coqueiros, pés de cupuaçu, graviola, jaca... Foi nesse quintal que eu aprendi a andar de bicicleta. Outra diversão era quando minha mãe esvaziava a piscina de plástico e toda aquela água escorria pelo terreno arenoso formando vários rios, ilhas e igarapés.

A volta para o sul, no fim do ano, foi em grande estilo: de avião. Minha avó, minhas irmãs e eu. Adorei meus companheiros de viagem. Um senhor grisalho, indo de Brasília até São Paulo, onde seguiria para o nordeste a fim de visitar uma filha. Um casal indo de São Paulo a Curitiba, que entrou no avião sem se conhecer e saiu abraçadinho. Amores modernos. Nossas malas foram extraviadas, e tive de vestir roupas das tias durante um mês.

Então eu estava morando em Erechim. A casa era ótima, porque era mais alta que o terreno, e brincávamos de casinha embaixo dela. A horta também era ótima, eu jogava "volei" com os vizinhos (um... dois... corta!!) e o bairro tinha uma pracinha enorme, supertranqüila. Voltamos para Pato Branco, e morei lá até março de 1998, quando aconteceu a minha primeira mudança como ser humano independente, auto-sustentável física e psicologicamente (porque em termos financeiros...)

Passei no vestibular e vim morar em Curitiba.

Muita coisa aconteceu. Mais coisas, provavelmente, do que em todo o resto da minha vida. Colegas de faculdade, festas da faculdade, estágios, trabalhos temporários, namorados "sérios", amores platônicos, uma loucura, mudança constante. Pensei que tudo tinha se arranjado em novembro do ano passado, quando fui contratada (meu primeiro registro na carteira!!!) para trabalhar na biblioteca das Faculdades Curitiba. Algum tempo de estabilidade, pensei. Agora vou comprar o meu sofá. Mas que nada. Seis meses depois, tamos aí, na loucura, na mudança constante outra vez...

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E agora: novos capítulos!!!

Seis meses de desemprego na grande metrópole podem causar grandes estragos: depressão, boemia, más companhias, desânimo, assaltos, empresas fictícias, salários pagos em escambo (um aparelho celular usado...), maus 'namorados', poucos amigos. Enfim! Fui convocada em reunião de família para retornar imediatamente ao casulo protetor: a casa dos pais. Nova mudança.

Vida nova. Menos festa e mais equilíbrio. O contato com a civilização eram 4 ou 5 horas de Messenger com todos os vizinhos, colegas de trabalho, de faculdade, ex-casos e demais conviventes que pudessem me trazer novidades da cidade grande. Sede de notícias sobre bares, cervejas, bandas, rock'n'roll. Foi uma época difícil, a desintoxicação. O primeiro emprego da nova vida foi meu pai quem conseguiu. Assistente de diagramação no Diário do Sudoeste, que então se chamava Diário do Povo. Era legal, a gente podia ficar boas horas de papo no Messenger (ainda não existia Google Talk!) e eu sempre publicava na Quitanda. Alguns dos meus melhores textos são desta época, eu acho. Em fevereiro, voltei para Curitiba no Psychocarnival, e foi minha última experiência-libertária-boêmia-solteira-lazer-putaria-diversão. E então. Rodrigo.

Eu já conhecia o Rodrigo há muito tempo. Uns 22 anos, pelas contas da minha mãe. O pai dele sempre foi cliente da loja de aquários do meu pai, e o Rodrigo continuou sendo cliente depois que os pais dele se separaram. E nosso encontro deu tão certo que depois de quase dois anos outra mudança, dessa vez juntos: casamos!

Eu adoro o nosso apartamento. O aluguel é um pouco caro e no inverno ele é frio porque não bate sol. Mas é enorme para um apartamento de dois quartos. Tem uma sala grande, uma sacada legal, onde o Rodrigo gosta de fumar. De noite, olhar da sala na direção da sacada me faz sentir num quadro do Magritte. Um dia eu vou conseguir pintar essa imagem: a sacada é curta, recuada do prédio. As paredes do meu apartamento e do vizinho são mais compridas que a sacada propriamente dita, o que forma uma espécie de desfiladeiro de desenho animado. A mureta da sacada tem a altura exata para deixar o espaço vazio do tamanho de um quadrado. O resultado é que parece que você está dentro de uma caixa, olhando para fora. E tudo isso é pintado de laranja forte. Quando está anoitecendo, o azul do céu fica escuro (o céu de Pato Branco é uma das coisas mais lindas que existe) e forma um contraste perfeito, meio alucinógeno. Tem dias que eu vejo os caras do quadro "Golconda" caindo do céu, passando pelo meu quadrado azul cercado de laranja. Às vezes, é só o quadrado em si, e o laranja, e as sombras. Mas dá pra por de um tudo ali: Godzila, canivetes, lâmpadas, isto-não-é-um-cachimbo, estrelas, sol, chuva. Já imaginei uma exposição inteira.

Outras coisas ótimas do apartamento. A área de serviço é grande, a cozinha é aconchegante, o novo sofá é uma delícia, a estante é linda e está cheia de livros que eu adoro. A cama (a cama!) é tamanho king, o colchão de mola é do outro mundo. E ainda tem um computador (sem internet) para eu ler um ou outro livrinho de vez em quando, e para o Rodrigo jogar Age of Empires. Minha cozinha é branca com verde e tem um lindo pingüim em cima (claro!) da geladeira. Do lado do sofá a mesa de canto apóia minha bolsa e os livros do momento. Entre o box e a pia do banheiro tem uma meia-parede, que não chega ao teto. E eu a uso como estante, para guardar meu gel de limpeza facial: assim eu posso usar de noite, durante o banho e também de manhã, antes do creme Renew "para depois dos 25 anos". E tudo isso a cinco minutos do meu novo emprego!

Aliás, a segunda maior mudança de todas. Afinal, estado civil é mais marcante do qualquer emprego. O IBGE, o Censo e suas loucuras. Mas isso é assunto para outro post...