27 de junho de 2011

Meu não-namoro*

Marcamos às 21 horas na frente do cinema. Era um festival de cinema japonês, ingresso quase de graça, dois filmes toda noite, uma coisa diferente pra se fazer. Estávamos saindo há umas três semanas, nada especial ainda, ambos queriam ir mais fundo e não tinham coragem de tomar a iniciativa. Quem já levou seus chutes na vida não quer sofrer à toa. É o protocolo.

O primero filme, hilário, sobre uma menina doida por dinheiro que vai trabalhar num banco só pra ficar perto das notas, lembrava Amelie Poulain com Forrest Gump, terminou 8:55. Esperei um pouquinho, nada do menino, fui com a minha irmã comprar café e pão de queijo numa padaria logo ali. Voltamos correndinho, ela foi pra aula e eu fiquei esperando. Nada. Então chega esse amigo, gente boníssima, já eram 9:20. Entramos juntos e ficamos rindo do filme, lento, arrastado e com um final tristíssimo, uma mulher recém-divorciada que se mata, e mata os filhos, tudo contado sob o ponto de vista de um colega do filho mais velho. Ficamos conversando em cochichos. Não, não se pode fazer isso no cinema, ainda mais em festival cultural com filmes desconhecidos japoneses. Mas nós éramos jovens e só queríamos nos divertir. Fim do filme, o amigo me acompanhou a pé até em casa, que um amigo dele morava no meu prédio e eles iam sei lá onde. E foram. Fui dormir.

O menino do encontro, o original, sumiu. Ficou um mês desaparecido e eu toda apaixonada, onde está esse desgraçado? O que que eu fiz pra merecer esse descasso, esse desterro? Nos encontramos em um show. “Você sumiu”. “Sumi nada, eu vi você se entregando toda pro loirão lá”. “No cinema? Era um amigo”. “Amigo nada, vocês tavam de risinhos, tititi, tititi, não achei que você fosse esse tipo de menina.” “Do tipo que tem amigos?” “Ah, esquece, vem dançar”. Dançamos. Era o que a gente mais gostava de fazer junto, dançar punk rock em casal como se fosse dança de salão. Mas não adiantou, dançar não recosturou a mágica que se desfez todinha durante o filme lento e triste. Passar duas horas olhando pra sua talvez futura namorada, no escuro, enquanto ela fica de tititi com um desconhecido, toda animada, destrói qualquer provável amor que se vá sentir por ela no futuro. “Se nós tivéssemos mesmo que ficar juntos, se fosse nosso destino, ela olhava aqui pra trás, me via e largava esse imbecil que conversa no cinema”. Mas meu sentido aranha falhou aquele dia. Pena. Nunca mais dancei punk rock de casal.

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*Texto que participou do trielo com tema "namorados" lá no Duelo de Escritores: