25 de outubro de 2013

Só muda o endereço, o humor, a vontade, a carreira, o apego, o método, o tempero, o...

isso QUANDO forem 6 meses, hummm???
Há algum tempo eu estou juntando feminismo com maternidade e conversando com as mães que eu conheço sobre as dificuldades, as opressões, as barreiras, os enfrentamentos e as crianças delas. E nenhuma dessas mães é igual à outra não, pelo contrário. Apesar de termos dificuldades parecidas, cada uma tem uma forma de lidar com elas, uma forma de ver o mundo, um jeito diferente de cuidar e educar suas crianças.

Nós mães somos iguais apenas para o mundo lá fora.

O que não muda é o julgamento alheio: esse, tá sempre com a gente.

O número de sites sobre maternidade cresceu muito nos últimos tempos e a gente vê a mesma variedade. É muito bonito que as mães tenham espaço para se expressar livremente... mas eu queria mais, queria que as mães fossem ouvidas por todos. Queria que o público dos sites fosse de todo tipo de gente e não majoritariamente de mães. Queria que todos se interessassem pelo futuro das crianças e pela emancipação e valorização das mulheres que, hoje, cuidam praticamente sozinhas delas. Trabalhando fora, em casa mesmo, ou não.

Algumas, por que gostam sim. Gostam não, adoram!

Mas muitas outras, muitas, demais, por pura falta de braços que se apresentem.

Ou de locais de trabalho que recebam os bebês também.


Eu queria lembrar dos pais que não ajudam a cuidar

E ainda exigem que a esposa cuide deles também.

E só pagam pensão quando a mãe aciona a justiça, a cada três meses.

E somem no mundo, não mandam nem dinheiro.

E nem reconhecem a paternidade.

E ainda assim acreditam que o desenvolvimento da criança é uma conquista deles.

Eu queria lembrar das mães que não encontram creche

E por isso não podem trabalhar, não tem outro tipo de renda, vivem de Bolsa Família e sustentam seus filhos com uma média de 237 reais por mês.

Das mães adolescentes, para quem a carreira ainda é parte dos sonhos, e precisam abandonar a escola para cuidar de seus filhos.

Das mães jovens, em início de carreira, que precisam abandonar a faculdade para cuidar de seus filhos.

Das mães que fazem as contas e descobrem que não compensa contratar babá e continuar trabalhando.

Eu queria contar que nem toda creche tem qualidade

Muitas creches tem horários insuficientes e irregulares.

Feriado municipal, recesso, férias... e a família que se vire.

Bebês que voltam pra casa com o bumbum assado.

Bebês que são deixados chorando o dia todo.

Bebês que não tem estímulo sensorial ou cognitivo algum, porque não tem cuidadora suficiente, e as poucas que tem precisam alimentar, trocar, limpar, alimentar, trocar, limpar...

Crianças pequenas que ficam o dia todo assistindo TV.

Crianças pequenas que não tem espaço para andar, correr, brincar.

E mesmo que a creche ofereça tudo isso...

Nada, nada, nada (nem vacina, nem amamentação materna, nem higiene de laboratório de ponta) impede que várias das crianças fiquem doentes quase todo mês.

"Crechite", "gripe infinita", "gripe de criança, tomando remédio ou não, passa em 7... anos."

As mães e pais de crianças que começaram há pouco nas creches e escolinhas já fazem até piada.

Mas não é fácil ver seu filho doente semana sim, semana não.

Até porque, ficar doente tantas vezes compromete o crescimento saudável.

E os empregadores, é claro, não gostam muito disso. "Essas crianças sempre doentes e as funcionárias sempre faltando".

Eu queria contar que a maioria dos sindicatos não brigam pelos direitos dos nossos filhos

Pode até ter dentista, material escolar e desconto no pediatra.

Mas não tentam fazer com que as creches abram no sábado de manhã.

Aceitam acordos irrisórios sobre os dias de licença para tratar de doença de familiares.

Não tentam melhorar o valor do Auxílio Pré-Escola.

Não negociam com grandes empresas a construção de creches e berçários no local de trabalho.

Nem percebem que as empresas são distantes da creche e é praticamente impossível para as mães saírem para amamentar os bebês.

É. E você aí pensando que é só contratar babá, certo?

"Ou deixar com a avó!" 

"Tira o leite com bombinha e congela!"

"E pronto. Agora, você, mãezinha, pode sair de casa tranquila e ser emancipada financeiramente."

"Ou você quer ser uma prostituta exclusiva, uma babá de luxo, uma parasita?"

"Ou você quer que os empregadores continuem dizendo que não contratam mulheres porque muitas delas ficam em casa pra cuidar das crianças?"

"Porque a única forma de comprar seu absorvente, sua pílula, sua roupa, sua maquiagem, o que te der na telha, é trabalhando."

"Porque a única forma de conseguir comida, leite em pó, remédio, fralda, sabonete, casa, roupas, calçados, móveis, luz elétrica, água encanada, gás, brinquedos, livros, teatro, cinema, parquinho... é trabalhando."

"Porque os filhos de quem não trabalha passam fome e necessidade."

"E qualquer trabalho serve, afinal, quem tem necessidade, tem pressa e a vocação não interessa."


"E deuzolivre se o seu marido te abandonar (afinal, quem não trabalha fica burra e desinteressante, sabia?), como você vai viver? Como seus filhos vão viver então?"

"Como vocês vão viver? Eu é que não vou ajudar! O governo tem mais com o que se preocupar! Quem pariu mateus que o embale!"

"Hein, mãezinha? Mãezinha? Mãezinha? Ih... dormiu... preguiçosa."

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Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva Maternidade e Carreira Profissional do Femmaterna. Escreva seu texto também e envie para nós, no femmaterna@gmail.com

Mais imagens ricamente ilustrativas do palpitar alheio em Que raio de mãe? e Maternidade da Depressão.

11 de outubro de 2013

Mais uma aventura aventurosa de Talia e Duna, parte 1 - Tiparis

Essa história é a continuação de "O resgate dos ricos panos", que você também poder ler gratuitamente, é só seguir o link. Os personagens e a trama inicial foram criados em parceria com meus colegas de RPG, Tiago Perreto, Jorge Luís Ferreira Enomoto e Eduardo Capistrano. A partir de agora minha história começa a se distanciar da que nós começamos lá em 2003... Mas eu espero que Duna e Sagan nunca deixem de ser como foram criados. E vamos à aventura!

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Mais uma aventura aventurosa de Talia e Duna (título provisório, claro).

Parte 1 - Tiparis

Em que, inspirado pela tranquilidade matinal de nossa heroína, o leitor pode conhecer mais detalhadamente as curiosas aves que são nome e símbolo da mais próspera e agitada província do reino de Valoton.

Definitivamente, a época do ano mais bonita, para Talia, é o início do verão, antes das chuvas. Nessa época, as manhãs costumam ser magníficas em Pouso das Garças. Mesmo indo dormir tarde quase todas as noites, devido ao trabalho na taberna, ela tenta acordar cedo todas as manhãs e passar alguns momentos no seu lugar preferido, onde um pequeno afluente encontra o rio das Garças Azuis. O riacho é chamado de Cachoeirinha, devido à queda d'água que barulheia o dia todo a poucos metros do encontro entre os rios. Há cerca de vinte anos, toda a mata da margem do Garças, com exceção dos portos das cidades principais, foi restaurada com árvores nativas, e os bosques foram crescendo fortes e sadios sob os cuidados zelosos dos moradores. Foi uma decisão conjunta da população de toda a província de Tipari, numa tentativa de preservar o seu mais imponente símbolo, uma espécie de garça azul gigante, a tipari. Naquela época, mesmo com a caça proibida há algumas décadas, as grandes aves só eram vistas em Tipari raramente, em pequenos bandos, e somente no litoral da província. Os Pioneiros e Primitivos da cidade queriam voltar a ver os lindos pássaros também na capital, que já havia sido, há muito tempo, um local costumeiro de descanso das aves. O Conselho sugeriu que todos deixassem o rio voltar a ser o que era antes da expansão da cidade. E proibir qual quer construção futura no delta do rio, onde as aves se reproduziram. E todos concordaram e trabalharam para isso. E agora alguns bandos de aves já se aventuravam, principalmente nessa época, até ali, para pescar e descansar. Talia adorava passar alguns minutos do dia sentada na grama do bosque próximo ao encontro dos dois rios, apenas observando a vida e a beleza do lugar.

O resgate da carga de tecidos havia tomado mais tempo e energia do que Talia imaginava e, no dia anterior, ela havia faltado à sua rotina matinal de observação. Então naquele dia, mesmo um pouco cansada por passar a noite conversando com Duna, resolveu acordar cedo. Ela precisava pensar. Muita coisa tinha mudado nesses últimos dois dias. Ela havia ajudado a recuperar uma carga roubada e, apesar de toda a luta com os ladrões ter sido praticamente resolvida por Sagan, o Machado Maldito (Talia sorriu, porque agora o nome dele tinha aumentado um pouco e estava começando a ficar famoso), ela tinha participado ativamente do trabalho e gostado muito. Sem falar nos cinco ou seis slurps que tinha conseguido acertar com suas facas. Talvez fosse uma boa hora para mudar de ramo... Talia sempre gostou muito de dançar, mas ultimamente a rotina de ensaios e apresentações estava ficando entediante e cansativa. E se entrasse para o ramo da segurança de caravanas, que era mesmo tão empolgante quanto ela imaginava, ainda poderia dançar quando quisesse. E sempre teria Pouso das Garças e as tiparis por ali.

É claro que um dos principais motivadores dessa decisão era Duna. Talia se descobriu interessada no rapaz. Ela conhecia um punhado de homens parecidos com ele: corajosos, fortes, que resolviam rapidamente as situações de conflito. Seu irmão mesmo era muito parecido com Duna, por esse lado. Mas nunca tinha conhecido nenhum homem que tratasse mulheres solteiras como iguais, como colegas. Somente esposas eram merecedoras dessa distinção. E apenas quando o homem com quem tinham casado lhes concedia isso. Mas para Duna parecia a coisa mais natural do mundo incluir Talia e suas opiniões nos planos do grupo. Muito incomum... e bastante interessante. Ela não seria só um enfeite, um disfarce, nem seria a "senhorita indefesa", com aspas, a que Tremelassé se referia. Ela seria uma parte da equipe. Isso sim fazia toda a diferença. Será que todos os homens do deserto agiam assim? Como deve ser diferente ser mulher naquele lugar, tomar parte em todas as decisões! E Duna... ele tinha ficado muito bonito com a manta de leopardo, barbeado e aprumado... “qualidades estéticas é claro”, Talia lembrou, sorrindo, de como ele havia falado do embaixador, mas também bastante apreciáveis.

Os pensamentos de Talia sobre o novo amigo foram interrompidos pelo ruído das asas de um bando de garças azuis se aproximando do rio para pescar. Os animais tinham a metade do tamanho de uma pessoa adulta. O corpo todo, inclusive as imponentes asas tinham a cor exata do céu nessa hora do amanhecer, e o voo das aves contra o azul mais distante do céu era um espetáculo que sempre encantava Talia. Ela nunca havia encontrado esse tom de azul em outro lugar. Somente no céu da manhã e nas asas das graciosas aves. Azul tipari. Era realmente especial. Talia se deixou levar pela beleza dos voos rasantes das aves e esqueceu, por alguns minutos, de todo o resto. “Como nós algum dia pudemos deixar que essas aves quase sumissem? Como fomos tolos!” Então um barulho de passos atrás dela chamou sua atenção. Ela se virou para olhar e deparou com um dos ajudantes do senhor Tremelassé, esbaforido:

“Senhorita Talia, o senhor Tremelassé está chamando a senhorita! É urgente!” – o garoto mal podia respirar, devia ter corrido desde a taberna até ali. Ou desde a guilda, Talia pensou. Tremlassé não era conhecido por ser paciente com seus aprendizes.

“Calma, menino, já passou seu recado. Sente-se aqui e descanse um pouco. Me conte o que tem de tão urgente assim nesse chamado do Tremelassé... não pode ser pior do que a carga roubada...”

“Ah, senhorita Talia, é uma coisa muito, muito importante!” – o rapaz não tinha sentado e já se preparava para sair: – “Preciso encontrar o senhor Duna também! É urgente!”

“Bom, se é tão urgente a ponto de chamar o Duna também... deixe-me ir com você! Mas sem correria! Não a essa hora da manhã!”

Talia se levantou, mas o moço já estava longe. “Acho que vou conversar com Tremelassé sobre o tratamento que ele dá a esses rapazes... não é nada justo que tenham tanto medo dele... pobrezinhos...” Talia foi se encaminhando para a guilda. “Com tanta pressa ele vai achar o Duna logo... é, pode ser que o Tremelassé esteja certo em ser tão rígido com seu pessoal...” Talia não conseguiu se apressar, nessas horas da manhã seu espírito exigia calma. Ela ainda olhava para o céu, para não perder algum outro bando de aves que por ventura também viesse pescar, quando entrou no centro da cidade e ouviu Duna chamando por ela.

“Talia! Bom dia!” – ele aparentava um pouco de pressa também, talvez o garoto tivesse entrado em detalhes com ele... – “Está indo até a guilda? O menino do Tremelico encontrou você? Já sabe que agora ele está indo até a casa de Sagan procurá-lo?”

“Bom dia pra você também, Vagante das Dunas! Sim, estou indo até a guilda, mas a essa hora da manhã nada me faz ter pressa... você está vendo lá?” – Talia apontou o céu, outro bando de garças estava sobrevoando a cidade em direção ao rio – “Novas tiparis estão chegando. A cada ano temos mais. Elas são tão lindas... e já foram tão poucas... quase perdemos nosso símbolo mais importante...”

Duna olhou contrariado para onde a moça apontava, mas assim que percebeu a beleza impressionante do voo das aves se deixou distrair e começou a observá-las também:

“São magníficas! Realmente, que urgência pode haver em um pouco de tecidos se comparados com essa beleza toda, não é? No deserto os animais são muito diferentes daqui.”

“Ah sim, as pobrezinhas precisam de muita água, muito peixe, muitas árvores... felizmente nós em Tipari aprendemos isso antes que elas desaparecessem. Todos daqui tem muito orgulho quando vemos que número de tiparis está aumentando, inclusive o Tremelassé. Não vê que ele tem aquele broche azul, igual a esse meu pingente? Ele foi um dos que mais doou terras para os bosques nas margens do rio...”

“Quem diria, um velhote tremelico e irritável!”

As aves desceram em direção ao rio e os dois puderam então olhar um para o outro. Duna estava vestindo novamente roupas de trabalho, mais grosseiras que o seu manto de leopardo, mas bem mais limpas que aquelas que usava quando conheceu Talia. Ela gostava dele assim, vestido como se estivesse pronto para tudo. Era isso que ela gostava nas pessoas, prontidão. Mesmo que ela mesma, às vezes, se deixasse levar em contemplações e devaneios, eram as pessoas ativas aquelas de quem ela mais gostava. Pensou que a roupa que ela mesma vestia nessa manhã dava a mesma impressão. Um vestido longo de algodão simples, o corpete onde sempre escondia uma ou duas pequenas facas e sandálias fortes. Não usava jóias, apenas seu colar com o pendente da tipari, como o que praticamente todos da cidade usavam, e os cabelos presos em uma trança no alto da cabeça. Pronta para o que surgisse. Duna pareceu gostar:

“Você está muito bonita, como sempre.”

“Como sempre? Você me conhece há três dias!”

“E em nenhum momento desses três dias eu tive qualquer evidência do contrário.”

Talia riu. Com certeza ele sabia cortejar. Mas esse tipo de conversa ela já conhecia. Ela poderia reagir àquilo como escolhesse... e já havia decido confiar em Duna, então aceitou o elogio da forma como estava sentindo-se verdadeiramente, com um sorriso sincero e uma retribuição:

“Obrigada, Duna, você também não está nada mal hoje.”

“Então aí estão vocês! Perdendo tempo com namoricos, enquanto Pouso das Garças e talvez toda a Tipari entram em crise! Jovens! Não podemos fazer nada sem eles, mas eles não querem nada conosco!” – Era Tremelassé, saindo da loja da guilda de encontro ao casal, como sempre, irritado e apressado: – “Poderiam andar mais depressa, sim? Deixem o romance para a noite, o dia foi feito para trabalhar! Venham, venham, depressa, preciso conversar com vocês em um local mais reservado!”

Duna e Talia atenderam rapidamente ao pedido do homem mais velho e o seguiram. A irritação de Tremelassé parecia um pouco diferente, mais urgente, e a necessidade de conversar em segredo interessou aos dois. “Tem alguma coisa aí e está cheirando à Vassília!” pensou Talia. E ela não poderia perder a oportunidade de descobrir o que era.

10 de outubro de 2013

O resgate dos ricos panos

Pessoal!

Ano passado escrevi a história de Talia, Duna e Sagan em 6 posts aqui na Quitanda. Agora resolvi juntar os capítulos e fazer um livrinho para vocês baixarem de grátis (aqui, em formato epub) e lerem no conforto dos seus celulares, tablets, e-readers! Também disponível on-line: é só clicar na figura abaixo e ler!

25 de junho de 2013

O que significam as bandeiras dos movimentos sociais na sua manifestação?

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva #PelaDemocracia, proposta pela Renata Corrêa. Tem um mundo de texto bão participando, vão lá e leiam as outras coisas também. Depois, né?

Estou vendo muita reclamação, pouca conversa e nenhum acordo sobre a explicitação da participação de movimentos sociais nas manifestações do Brasil todo. O que eu vejo em geral são os manifestantes pedindo para a pessoa vir ("não somos contra a sua participação, Fulanx de Tal"), mas sem o símbolo de seu movimento, sem explicitar sua ligação com coletivos ("mas deixe sua bandeira em casa"). Eu queria falar um pouco sobre o que representa a participação explícita (marcada com cartazes, símbolos, bandeiras) de um movimento social organizado em uma ação coletiva, como os manifestos que estão acontecendo, cartas públicas de apoio e repúdio, enfim, qualquer atividade coletiva, "do povo".

Quando um movimento social organizado se apresenta com sua sigla, bandeira, símbolo, assinatura, está levando apoio ao seu movimento. A organização de cada movimento social é diferente, mas, na maioria das vezes, a participação de um coletivo em uma ação é discutida entre os membros desse grupo. Então, quando uma pessoa aparece com uma faixa/cartaz/bandeira em um manifesto, ele representa o movimento, representa todas essas pessoas que fazem parte do seu grupo. É um representando vários.

E isso é bom, não é?

Pato Branco é sexy! - Foto de Odan Jaeger
É claro que os participantes da ação tem o direito de aceitar ou não esse apoio. Isso vai depender dos objetivos da ação, da mensagem que a ação quer transmitir. É uma decisão de comunicação e tem que ser bem pensada. Os objetivos do movimento social que apresenta apoio podem ser totalmente contrários à causa defendida... seria muito estranho um sindicato patronal (o sindicato dos patrões, dos donos) de empresas de ônibus em manifestação pela redução de tarifas, não é? Ou uma organização "pró-vida" (sic) em um manifesto contra o Estatuto do Nascituro. Em casos assim, de conflitos claros de interesse, eu acredito que o pedido para "baixar sua bandeira" faça todo o sentido.

Central Sindical e Popular na Marcha das Vadias
de Belo Horizonte
Por isso eu estou, hoje, de acordo com as decisões (quando são decisões, e não imposições) de não levar bandeiras e símbolos de partidos políticos nas manifestações. As manifestações, em geral, estão pedindo reforma política (mesmo que não saibam disso... risos), e os partidos representam, mesmo que não seja a intenção de seus membros, justamente aquilo que está sendo criticado nos manifestos: a falta de participação popular nas decisões do governo. Aqui eu queria conversar um pouco com o pessoal dos partidos... A maioria pensa, de coração, que o partido representa sim as pessoas... mas hum... quando tem muita gente dizendo que não... talvez a percepção de vocês esteja um pouco equivocada...

Aprosmig - Associação das Prostitutas de Minas Gerais
na Marcha das Vadias de Belo Horizonte

E é por isso, também, que acho que as bandeiras dos movimentos organizados podem ser aceitas sem receio (e com festa!!!) pelas manifestações. Porque as bandeiras dos movimentos são símbolos da livre associação política. Símbolo do povo se unindo por causas em comum. Símbolo da liberdade de fazer exatamente o que você está fazendo. Quando o símbolo de um movimento se soma ao seu movimento, são todas as pessoas do movimento que também estão ali. Porque querem, livremente, sem pressões nem interesses "eleitoreiros", fazer parte da sua proposta. Porque acham que a sua luta é válida, importante e precisa de mais braços, de mais gente, de mais apoio.

A mensagem que uma manifestação que recebe bandeiras, siglas e cartazes de movimentos organizados passa é a de que é lindo se organizar!!! De que o seu movimento é sexy!

Então é isso. Vamos decidir coletivamente sobre os símbolos dos partidos nas manifestações, sem imposição. Mas vamos deixar as bandeiras dos movimentos virem, desde que alinhadas às nossas causas. Elas só estão somando e deixando nosso movimento mais bonito e mais sexy!

[Era isso que eu tinha pra dizer, mas para exemplificar, vou contar como isso tem funcionado, se alguém ainda estiver interesse em ler]
Como a maioria dos coletivos endossa ações
No começo desse mês, o coletivo "Blogueiras Negras" escreveu uma carta aberta à criadora do vídeo "Nega do Cabelo Duro", em que uma menina de rosto pintado de negro canta a música e faz piada com o próprio cabelo. A carta falava, principalmente, sobre como essas piadas reforçam uma ideia racista de que cabelo crespo é "duro" e não é bonito:
"A ideia de que ser branco é ser bonito faz com que milhões de mulheres pretas comprem produtos de alisamento e relaxamento para que seus cabelos percam volume, para que se sintam mais “aceitáveis” dentro de um padrão eurocêntrico racista. Assim como ensinou Sofia, nós também somos ensinadas que nossos cabelos são “ruins”, “difíceis de cuidar”. Que não são bonitos e nem práticos. Isso nos destrói por dentro desde muito cedo."
"É assim que a autoestima de crianças, adolescentes e mulheres negras é destruída. É assim que, ao invés amar quem somos e nossas origens, aprendemos a odiar nossos corpos, nossos cabelos. É por isso que muitas de nós tentam se parecer com aquilo que o racismo diz que é correto, que é ser limpo, que é ter uma aparência profissional. É por isso que muitas mães alisam os cabelos de suas filhas tão cedo."
Quando algumas participantes do FemMaterna, inclusive eu, ficamos sabendo da carta, levamos para nosso grupo a possibilidade de assiná-la, porque achamos que a carta está dentro do que nós imaginamos como proposta do FemMaterna: construir com nossos filhos, "um mundo que acolha a diversidade e que questione desigualdades, preconceitos e estereótipos." Depois de o grupo concordar, assinamos a carta, assim como vários outros coletivos também. E assim a carta ganha relevância, porque é apresentada não apenas por um único movimento, mas vários.

10 de junho de 2013

Feminismo, maternidade e capitalismo: tá difícil de conciliar as políticas?

"Tá tendo" um debate gigante e importante entre o feminismo e a maternidade. Eu queria falar da minha posição aqui, que difere muito de algumas feministas. Eu acredito que ser mãe não apaga a identidade da mulher. Também não compromete sua autonomia - quem compromete a autonomia da mãe ou do pai que desejam ficar em casa por mais tempo para cuidar das crianças é o mercado, é o sistema político em que vivemos - e não a maternidade em si.

Mas vamos por partes. Eu preciso deixar claro o que é família e maternagem... também tenho uma visão um pouco diferente da tradicional sobre esses termos.

Família é o grupo de pessoas unidas por parentesco de afeto, legal ou de sangue, que forma a base da sociedade, onde a maioria das pessoas é socializada. Nem sempre famílias tem crianças. Famílias podem ser um casal, dois irmãos, duas irmãs, um tio e um sobrinho, um neto e um avô, ou amigos que se dão bem e resolvem morar juntos e dividir despesas. A existência de crianças na família a torna um pouco diferente, porque as crianças exigem uma série de cuidados, que devem ser exercidos por adultos, para que formem sua personalidade e cresçam saudáveis e, como todos gostaríamos (eu espero), sejam felizes.

Maternagem, pra mim, como feminista que pensa a maternidade, é o cuidado com as crianças exercido pelos adultos da família a que elas pertencem. Então, além da mãe, o pai materna e outros familiares, não nucleares, podem maternar também, o tio, a tia maternam. A vó materna. E como hoje, na maioria dos casos, a maternagem é exercida por uma mulher, o que traz várias características, situações e especificidades, eu considero as questões da maternidade partes importantes do meu feminismo. Eu quero, sim, ajudar as mães.

Mãe é uma mulher (mulheres trans são mulheres) que exerce a maternidade de uma ou mais crianças que a consideram mãe. Ela pode exercer essa maternidade de forma solo, ou dividir essa tarefa com algum parente próximo, a avó ou o avô das crianças, um tio ou uma tia delas, por exemplo. É um pouco mais raro que um homem (homens trans são homens), sozinho, exerça a paternidade, mas isso também pode ocorrer. Existem muitos casos em que o cuidado com as crianças é exercido por cônjuges, que possuem também um relacionamento entre si. Mas não necessariamente serão um casal formado por mulher e homem. Pai e mãe nem sempre têm vínculo biológico com essas crianças, podem ser definidos assim pela relação de afeto que existe na família. É essa relação de afeto e amor que vai definir a família e diferenciar "cuidar" de "maternar".

Dinheiro é, aqui, a voz de quem é dono do capital. Voz de quem, hoje, tem o poder de organizar quem entra e quem sai da roda da fortuna no mundo - políticos, empresários, investidores, diretores, acionistas.

Política é a forma do ser humano se organizar em sociedade. É como as pessoas conversam entre si, constroem suas estruturas de auxílio mútuo, de garantia de direitos e de suprimento dos desejos de cada um. A política, pra mim, deve procurar ouvir a todos e buscar sempre satisfazer as necessidades de cada um, para que todos consigam buscar seus desejos sem empecilhos estruturais.

Essa conversa não é sobre mães ou pais que suspendem o trabalho para maternar por falta de alternativa - por falta de creche, por salários baixos que não compensem o trabalho, por falta de apoio familiar... essas pessoas são o elo mais fraco da sociedade e precisamos ajudá-las urgentemente. O que está me incomodando bastante são teóricas e ativistas feministas que estão excluindo, das "escolhas feministas", a decisão da mãe, da mulher, de assumir, como principal, o trabalho de cuidado. Das mulheres decidem maternar entre outras opções de carreira. Por exemplo, a Iara Paiva critica a decisão de a mulher dar um tempo no trabalho e na carreira para exercer maternagem como prioridade:
"Eu acho perfeitamente possível que uma mulher escolha isso pra si [suspender a carreira em favor dos filhos] e se sinta feliz e realizada. Meu problema é se ela defender isso como uma escolha feminista. Porque não é. É algo que está no campo das contradições, as mesmas que eu tenho na minha vida pessoal e que fiz questão de apresentar. Essa mulher, assim como eu, não é menos merecedora de respeito e dignidade. Respeito sua escolha individual, mas se ela apresentar isso publicamente como feminista, não vou arrancar carteirinha, mas vou criticar o discurso. Vou problematizar, vou dizer que se não contempla perspectivas de diferentes modelos de família e de classe sociais, é um discurso falho. Vou dizer que ela, como eu, está reforçando a imagem de que não vale a pena investir em treinamentos corporativos para as mulheres, porque elas estão mais dispostas a abdicar da carreira. E claro, que por mais que ela pessoalmente se sinta bem e “empoderada”, não há nada de empoderador em ter não ter renda própria se a nossa autonomia no mundo capitalista está diretamente relacionada ao dinheiro. E claro, por fim, se os pais, de maneira geral, ganham mais do que as mães, é porque ainda se encara o salário deles como “provedor” – e quando as mulheres saem do mercado de trabalho só endossam isso. Não acho que ninguém tem que ser condenada por não querer deixar filha na creche, mas feminista é delegar cuidado das crianças, não centralizá-lo. E tudo bem fazer escolhas não-feministas. Eu também faço, como contei. Ninguém é feito só de coerência política. Somos, as pessoas todas, feitas de afeto, de paixões, de impulsos." Leiam tudo aqui.
Eu acredito que a Iara, nesse comentário, misturou duas coisas que devem ser separadas. Uma, a decisão da mulher pela perda de autonomia financeira e outra, o que o dinheiro obriga as mulheres a fazer para lhes permitir ter carreira. Pra mim, o feminismo não tem que "respeitar" a escolha da mulher que fica em casa. Ele tem que sustentar essa liberdade. O feminismo tem que abraçar as liberdades das mulheres. Não é complicado resolver a questão da autonomia financeira, se considerarmos justificado e essencial o cuidado de qualidade das crianças e a autonomia da família sobre ele: melhores tempos de licença parental dão conta disso.

Existe uma política interessante nos países europeus de uma licença parental suficiente, que satisfaz as demandas dos pais e mães (e a culpa e a consciência também) - um ano para cada responsável, por exemplo, contemplando dois anos de vida da criança: a humanidade precisa de crianças, de nascimentos. O pai é tão capaz e responsável pelo cuidado familiar das crianças quanto a mãe. Mas pra conseguir ficar um ano cuidando exclusivamente das crianças, os pais tem que aprender a cuidar desde sempre - por isso, eu, como feminista, vejo como um dever mesmo, uma obrigação, o cuidado exercido - e dividido - pelo homem que gerou/adotou a criança desde o nascimento ou adoção. Eu não considero suficiente a visão atual do pai, no Brasil, o "provedor".

E na minha ideia de política, temos que escutar as pessoas conversar. E uma das funções do feminismo, pra mim, é escutar as mulheres e reverberar, ampliar as vozes delas. Assim, a mãe decidir cuidar dos filhos pessoalmente ou delegar esse cuidado não é matéria de crítica do feminismo, é matéria para apoio do feminismo. O feminismo tem que se preocupar em sustentar, de novo, a liberdade das mulheres em serem mães como quiserem ser. Quem quer ficar em casa, terá dois anos de licença parental. Quem quer trabalhar, terá creche, babá, escolinha, berçário... conforme desejar e achar melhor pro seu filho e pra sua família. 

Mas algumas feministas julgam e criticam a mulher que quer ficar em casa além da licença parental, como a Iara colocou, dizendo que isso vai vai atrapalhar todas as mulheres porque "escutem só o que o dinheiro diz!" E então o feminismo afasta essas mulheres intencionalmente! E além do mais, é complicada essa visão, né? Não me parece muito feminista defender as idéias dos capitalistas em detrimento da vontade da mulher. Nisso eu discordo completamente, esse tipo de justificativa não me representa. Delegar a liberdade das mulheres às decisões do capital? Nunca!

Se é considerado conservador ficar em casa para criar os filhos é também conservador delegar o cuidado apenas porque o dinheiro precisa disso. A gente vai delegar o cuidado porque a mãe ou o pai querem trabalhar, estudar, ir no museu, viajar, plantar batata, pescar, nadar no mar, fazer bagunça, ir no show de rock, de sertanejo, no baile funk, porque deu na veneta de uma mãe ou um pai delegar esse cuidado, enfim, e não porque as empresas precisam de mães e pais que trabalhem tantas horas por dia ou “rendam o investimento aplicado em treinamento”. Não podemos considerar as imposições do sistema como essenciais para o comportamento das mulheres.

Não podemos trocar o essencialismo biológico pelo essencialismo mercadológico.

Não é valorizando ou elencando como bandeira a terceirização ou a delegação do cuidado à força, à revelia da mulher que é mãe, que o feminismo deve conversar com o capital. O feminismo precisa sustentar as escolhas conscientes das mulheres quando elas são contrárias às necessidades do dinheiro! Principalmente aí, porque o dinheiro é que não vai sustentar essa liberdade!

Não consigo aceitar que o feminismo coloque na balança a voz das mulheres e a do dinheiro e escolha como mais importante as necessidades do mercado! Mas também não acho que temos que ignorar a voz do dinheiro, dinheiro é bom. Mas precisamos conciliar o desejo das mulheres, a ética do cuidado que elas apresentam como alternativa à ética do dinheiro. Acho que ISSO É A MINHA REVOLUÇÃO.

Mas e o dinheiro? Nós vamos dizer que, como ideia política, o capitalismo está errado. A mulher (inclusive as que adotam crianças) devem ter a liberdade de decidir sua maternagem independente do que o capital pague, queira ou precise! Nós vamos buscar formas de conciliar as necessidades do dinheiro com as necessidades das mães, porque o feminismo entende que existem dificuldades econômicas, administrativas, tributárias de quem está empregando sim, mas elas não tem preferência sobre pessoas!

Política é para gente, não para dinheiro. Feminismo atende gente (preferencialmente mulheres) e não ao capital. Colocar o dinheiro na frente da voz da mulher é feminismo?

Então, se os empresários não estão treinando, aceitando, investindo em mulheres por conta da maternidade, contra o que acreditamos ser fundamental - autonomia da família na decisão de maternar, nós vamos buscar alternativas. O Estado pode assumir ou subsidiar alguma parte desse treinamento? Pode fazer isenção de impostos, ou descontos, para garantir equilíbrio no treinamento de homens e mulheres? O Sindicato das Mulheres Trabalhadoras (SMT) pode sugerir uma substituta competente, e com o mesmo treinamento, para suprir essa vaga?

Como a gente pode sustentar, como feminismo, a liberdade da mulher suspender o trabalho pelo tempo que lhe der na telha (por motivos de maternidade ou não, ué, mulher fica doente, vai tomar banho de mar, vai no show de rock e no baile funk etc) em frente às necessidades do mercado de trabalho? Isso é que é revolução, isso é que é feminismo, e não como algumas feministas estão sugerindo – que o feminismo exclua como "não é minha" a voz dessas mulheres!

6 de maio de 2013

Textos, textos, pra todo lado!!!

Então, estou devendo demais pra quitanda.

Mas tenho escrito em outras paragens e vou compartilhar com vocês aqui. Leiam lá!

Eu era uma groupie juvenil (link)
"O que eu queria era rock. E como eu não conhecia bandas e cantoras femininas, rock pra mim era feito por meninos e eu os adorava por isso… e por serem bonitos. O mais sem graça da escola poderia, magicamente, parecer um belo pedaço de carne no palco. A mágica que toca a alma groupie é aquela que faz meio quilo de carne moída andando na rua virar filé mignon com um microfone ou baixo na mão. Pelo menos pra mim, o amor pelo rock salivava."

Do diálogo: a minha resposta para a vida, o universo e tudo mais (link)

"E tudo que faço hoje, tudo o que consegui, começou com uma conversa. Ao vivo, por telefone, pela internet. Uma amiga tem uma frase ótima: “os portadores de boca sempre vão se achar no direito de falar”. Quero usar meu porte de boca, de dedos, de mente para construir. Sozinha eu não conseguiria fazer nada tão rápido assim. Então, esse texto é um depoimento feliz de quem vem conseguindo coisas lindas só batendo papo." 
"E você usa o seu porte de boca pra quê?"

Quem é mãe? (link)
"O que existe nessa relação entre duas pessoas que os torna mãe e filho? O cuidado? O tempo? O que é mãe? O que é filho? São coisas concretas, como a gente aprende na terceira série?"
"Acho que não, acho que mãe é substantivo abstrato. Porque mãe não é um substantivo para uma pessoa, é um marcador de relação (isso sim, um termo muito abstrato) que se tem com ela. A única condição que, talvez, delimite com certeza o termo é “ser reconhecida como mãe por um filho”, ou seja, que alguém se reconheça filho dessa mãe. É possível ser mãe, por exemplo, dos filhos de outros relacionamentos do companheiro ou da companheira, mesmo que estes não a reconheçam como mãe? É possível existir mãe em outros tipos de relações, não familiares? Uma babá pode ser mãe da criança que cuida? Quem vai dizer que sim? Que não? Alguém de fora dessa relação pode dizer isso? Eu posso dar a alguém o nome “mãe”? Eu posso retirar esse nome de alguém?"
Mães não ouvem rock (link)
"Mas negócio é que quando virei mãe incorporei a seriedade da função. Talvez sejam as 24 horas por dia de preocupação, sei lá. Eu mesma não tinha percebido que tenho o mesmo preconceito com as mulheres que conheci já como mães. Isso a vida toda, nunca achei que mães ouvissem rock. Aí fui embora e voltei pra Pato Branco, que não é exatamente conhecida pelo mercado de música alternativa… rock em Pato Branco (até Beatles) é “alternativo”. Pessoal aqui ainda chama todo um universo de “rock pauleira”. Vai vendo. Meu preconceito consolidou como crença. Feio."

20 de março de 2013

A redação do miojo não é notícia, mas rende uma boa conversa

As aulas de redação sempre foram minhas preferidas. E eu sempre fui bem, aí acabei achando que escrevo razoavelmente e me aventurei a escrever blogs e artigos e etcs. Eu nunca, jamais, colocaria uma receita de miojo numa redação sobre imigração (mas poderia citá-lo: o "miojo" é um exemplo ótimo de como as ideias também migram e não somente as pessoas). Minhas redações eram mais certinhas, sempre dentro do tema e minhas "tiradas criativas" eram mais inteligentes e bem colocadas (cof, cof), por isso eu nunca tirei um 5,6 em uma redação.

Então eu estou defendendo a nota desse menino e do menino que colocou o hino do palmeiras. Porque eu acho que como recurso estilístico foi uma coisa legal. A do palmeiras é bem pior que a do miojo, mas só porque ele não adaptou o hino. Se ele tivesse trocado "palmeiras" por "seleção" e "alviverde" por "canarinho", mereceria 1000! É exatamente o patriotismo de "torcida" que torna uma coisa tão humana e útil quanto imigração como "ilegal". Nós temos que deixar de ser torcedores do Brasil para sermos cidadãos, não só do país, mas cidadãos da humanidade.

Além as minhas próprias ideias ótimas (cof, cof), o causo rendeu muita conversa com gente boníssima no facebook. Primeiro dois textos de amigos foram as melhores coisas que eu li sobre o assunto, fora, é claro, esse que você está lendo.

Primeiro, o Ricardo Lísias, que é um fofo e permite que seus leitores e fãs sejam seus amigos de facebook, corrigiu a mesma redação como professor e deu algumas dicas de como usá-la em sala de aula como exemplo do que não fazer em redações do ENEM (a não ser que você tenha como meta uma nota 5,6, claro), ó um trecho:
"Explique enfim que o trecho sobre o miojo gera uma forte sensação de humor. Você pode citar o mesmo uso nos textos de Oswald de Andrade. Deixe claro ainda que se trata de um desvio do que se espera da redação. Explique a função das colagens nos textos modernos, inclusive seu aspecto de crítica."
Além da qualidade do texto em si, outra coisa que a gente não pode esquecer é que "O Globo", assim como inúmeros outros meios de imprensa, é sempre contrário ao atual governo. Sempre. Mesmo quando não existe algo a criticar (por isso a forma como eles noticiaram o caso miojo é uma não-notícia), eles criticam. E, sobre isso, o Paulo Cândido também falou (mas que droga, por enquanto não tem como linkar texto puro do facebook... então vai ser uma citação longa... o texto está perdido na página dele.)
"Mas basta anotar que os problemas de segurança, que assombraram o ENEM nos anos anteriores, parecem ter sido sanados. Perdida essa pauta, que fazer? Resta aos nossos bravos defensores da liberdade trabalharem duro, na busca incessante de alguma coisa que desqualifique o ENEM, o governo e o PT, nesta ordem.
Então, a primeira historinha foram os "inaceitáveis" erros de ortografia, encontrados aqui e ali, em algumas poucas redações bem avaliadas. Como se a redação do ENEM estivesse a medir a excelência ortográfica do candidato, qual uma imensa e anônima tia Margarida do quinto ano. O problema daquelas "denúncias", em que pese as timelines gritando "analfabetos" e "culpa do PT", é a confusão entre precisão ortográfica e precisão semântica e gramatical. Serve para dar vazão e voz à ignorância linguística média das timelines e da imprensa, às crenças do senso comum sobre o que seja uma língua e sobre como uma língua se move. E às crenças absolutamente infundadas de correlação entre ideias e ortografia.
A não-notícia de ontem e hoje, é claro, continuando aquelas da semana passada (a passo de tartaruga, eu diria - se é tão difícil achar exemplos da sua tese, será que a tese se sustenta?), é o yakisoba de letrinhas que ganhou nota média. Quem leu a redação inteira deve ter visto que há uma transição, quase uma brincadeira de adolescente. O texto para, marca o lugar em que vai passar a ser miojo, depois volta. O entorno do miojo, este que o examinador julgou, pode ter nota 520? Com certeza. Leia lá, nada nem de longe excepcional, mas vai de A até B passando por C e D, uma dissertação de apostila. Exceto, é claro, pelo excesso de macarrão japonês escapando pelas margens."
E então, conversando sobre o assunto com a queridíssima Neo Santi, um dos melhores presentes que um amigo de faculdade me deu, surgiu uma analogia com aulas de música que explica tudo o que eu sinto sobre o caso:
"Nas minhas aulas de música no colégio, (existiam, mas vamos trazer para o presente), existem adolescentes rebeldíssimos, bagunceiros, mas que na minha aula são aplicados. Zeram em tudo menos em música. Existem adolescentes nerds que na hora da minha aula não tiram o boné ou ficam mascando chiclete e não cantam. Não levam nota boa e questionam serem injustiçados por terem nota menor do que os "maus elementos". Não me interessa o resultado das outras matérias. A mim interessa é a participação deles em minha matéria! O piá do fundão se saiu bem e o nerd da primeira fila se saiu mal. Se fizermos depois um paralelo, o nerd não perdeu nada e o do fundão ganhou alguma coisinha. O do miojo e o do p(P)almeiras fugiram ao tema, assim como o nerd que não tirou o boné na hora de cantar (e não cantou) o Hino Nacional!!!"
Não é bom? Vocês não conseguem imaginar como as aulas de redação poderiam ter o mesmo poder de "redenção" dos "maus elementos" que uma aula de música, se os professores fossem menos rígidos com formas e ortografia e valorizassem mais a criatividade, a comunicabilidade do texto? A literatura é arte, como a música, e redações poderiam ser expressões artísticas também. Se deixassem. Se olhassem para elas com menos rigidez, com menos crueldade.

Então eu acho que, neste caso de miojos e torcidas, não é como se eles não tirassem o boné e não cantassem o Hino por conta do chiclete. O que acontece é que esses meninos cantaram o Hino sim, e dentro do ritmo, da melodia e da métrica. Só que lá no meio da letra misturaram a canção com outra coisa... o hino do Palmeiras, uma jingle, uma musiquinha infantil... sem, entretanto, bagunçar a execução do Hino como um todo.

Seria muito cruel, autoritário e anti-didático punir essas redações com nota zero e dificultar-lhes o acesso à faculdade por conta de irreverência, criatividade e pelo destemor de criticar o sistema (o ensino de música, o ENEM, o patriotismo, no caso do Hino) dentro da redação. Eles estavam criticando e testando a redação e o processo seletivo dentro do próprio ENEM! É uma tentativa de metalinguagem e isso é mais do que bom, é quase necessário.

Então, que bom que eles fizeram isso. Aos concorrentes que ficaram sinceramente chateados, indignados pela nota em si, e que acham que isso foi uma "brincadeira com nossos futuros e nossas vidas"* eu só posso dizer que também foi bom pra eles. Se esses meninos tivessem se mantido no tema poderiam ter tirado notas ainda melhores. E aí, sim, eles iriam atrapalhar em alguma coisa o processo seletivo de vocês...

* Li numa carta que um estudante enviou ao Senador Álvaro Dias... Não é uma coisa muito triste achar que o próprio futuro e a própria vida estão nas mãos do ENEM ou da faculdade? E se o estudante da carta não se sente assim realmente, só usa essas palavras como recurso estilístico e dramático, não é bem mais pobre que as redações cometidas pelos meninos?

8 de março de 2013

Carreira e maternidade: Sharon, Rodrigo e Tomás

Oi pessoal da blogagem coletiva! Hoje o Mamatraca quer "saber em detalhes" a nossa experiência e vou contar um pouco aqui. Já fazem 2 anos e 8 meses que voltei a trabalhar, após a licença, e agora eu acho que está tudo bem tranquilo... todos os envolvidos estão satisfeitos com o arranjo da mamãe nos trabalhos dela.


Rodrigo e eu dividimos tudo. Em todas as minhas conquistas e trabalhos ele é parte fundamental. Sem ele eu não faria metade do que eu faço! Eu vejo a relação entre ele e o Tomás como um espelho da que eu mesma tenho com o petiz. A sintonia e amor entre eles são tão bonitos! Para o Tomás, não existem muitas diferenças entre ser cuidado pelo pai ou pela mãe... e claro que isso é ótimo.

Obrigada, meu amor, por tudo! Te amo demais, amo demais nossa vida e nossa família!

Nesses quase 3 anos teve muita dúvida, muita angústia, algum choro, todo o estresse... Tomás teve crechites que pareciam não ter fim... a "gripe contínua" que pega todas as crianças que vão em creche... Fiquei internada com ele duas vezes, usei todos os meus 30 dias por ano de falta justificável por saúde de dependente para cuidar de dores de garganta mensais. Infelizmente isso é um privilégio, pouca mãe tem. E aqueles dias corridos de "ponto facultativo" municipal, quando a creche fecha, mas eu tenho que trabalhar. Ai. Nesses dias tivemos ajuda de vizinhas (ah! o valor reconhecido da boa vizinhança!), da minha mãe, da minha sogra e das minhas irmãs. É muito povo me ajudando!

Família chique!
Porque vejam só, eu tenho quatro (QUATRO!) carreiras, além da maternidade. A do IBGE, que é a minha fonte de renda, batendo ponto das 8 às 17. O Leitura sem Fronteiras, onde sou voluntária de incentivo à leitura, abrindo estantes, contatando pessoas, recebendo doações. A quitanda, que é pra diversão mesmo e ultimamente estava meio parada... E o ativismo de conversê, minha dedicação à defesa do ideal feminista. No FemMaterna, nas Blogueiras Feministas, no facebook, onde eu puder. E, logo, também vou estar em mais um site feminista, sobre rock!

Eu sou feminista. Nosso feminismo, o feminismo dos meus grupos, quer que toda mulher consiga ser tudo que quiser ser. Tendo filhos ou não, conforme ela decidir. Nosso feminismo é de apoio, nosso feminismo é sororidade. Essa é uma palavra que renasceu nesses anos e é perfeita para descrever meu sentimento em relação às mulheres que lutam comigo: as irmãs que eu fiz na vida, minhas sorors.

FemMaterna, um grupo de mães feministas!

Eu sou um raio de uma mãe feminista. Eu defendo e vivo que o filho não é responsabilidade exclusiva da mãe, da mulher. Nem mesmo da mãe e do pai. Criança é cidadã, faz parte de uma sociedade, de uma cidade, de um país. Todos tem responsabilidade. O mundo em que eu acredito é um mundo onde toda criança é respeitada em todas as suas demandas, por todos. O que inclui, é claro, comensais de restaurantes. (risos)

Tudo dá muito trabalho, claro! Eu gosto da minha vida assim. O Tomás gosta da mãe feliz, gosta da creche, gosta dos amigos que tem lá. Ele está feliz, passaram as fases difíceis, as crechites, as adaptações... e agora só falta o pequeninho dormir a noite toda. Mas nem ligo (teoricamente) porque, já que a noite é o meu tempo com ele, a noite tem mesmo é que ser nossa. Pra mamãe estar ali e cuidar dele. Brincar, ler, ajudar, ensinar. Amar.

Que venham os próximos 80 anos de maternidade e carreira!

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Às vezes eu cometo alguns posts sobre filhos. E também escrevo bastante sobre livros infantis.

7 de março de 2013

10 autores de quem eu leria qualquer coisa

Vi a postagem no pontoLivro do Luciano, que viu no Distopicamente da Isabel. E copiei. Até a imagem, roubei do Lu:


Na verdade, dos que já encerraram a produção, eu já li quase tudo o que foi publicado... Então eu tenho quase absoluta certeza. Como o Luciano, vou colocar em ordem alfabética para não hierarquizar ninguém.

Carlos Drummond de Andrade

Um dos poucos poetas que eu. Cronista excelente... escreve limpinho, fala bonito, incomparável.

Domingos Pellegrini

Fazer o quê.

Fernando Sabino

Às vezes, triste, noutras, engraçado e na maioria das vezes, nostálgico. Como a vida.

Graciliano Ramos

Ai, a verdade do que ele escreve dói na alma da gente, não dá pra ficar incólume.

Henfil

Fofo! (Sim, só por isso)

Lygia Bojunga

Porque entende as meninas.

Nick Hornby

Fofinho, pop, "fácil". Não é só pelo rock não... é porque é bom!

Edgar Allan Poe

Pô!

Stephen King

Fã é fã. Apesar de fazer um certo tempo, se me cair na mão alguma coisa, eu devoro.

Zélia Gattai

Ela quase que só escreveu memórias... mas tem um jeito tão divertido de falar delas...

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Adoro listas. Mais algumas:

- Top 10 da Sharon dos melhores romances de todos os tempos de todo o mundo
- Top 10 da Sharon dos melhores livros de literatura infantil
- Top 10 da Sharon dos melhores livros para ler a noite em claro

4 de março de 2013

Primeiro Livro Que Viaja da Quitanda: "A caneta e o anzol", Domingos Pellegini

Eu adoro a ideia de um livro viajante, circulando por diversas partes do país, sendo lido por pessoas diferentes e comentado por todo mundo... Conversas se originando. Acho que para iniciar uma viagem, a primeira que eu organizo, o livro tem que ter a ver comigo. Pelo menos um pouquinho. Além disso, tem que ser de leitura rápida e leve (envio barato todo mundo gosta, não é?)

E hoje topei na banca com um que tem. Tem eu, que cresci com meu pai pescador... companhando as histórias, os causos, as feridas, as limpezas, as fritadas de jundiá e as traíras na grelha. Tem o marido, que desde que o meu pai se mudou para Roraima está sem companheiro de pesca e sofre, todo domingo, assistindo aos programas de pesca na TV. Tem meu filho, que já pegou o primeiro peixe, com três anos! Tem meus avós, ambos, o materno e o paterno, chegando em casa com o peixinhos pra fritar na janta. Tem minha mãe, que pesca, minha tia-avó, meu tio-avô. Um e outro primo. Tem gente pra caramba.

Leia mais sobre o livro
na página da editora 
Tem eu também no Domingos Pellegrini, escritor de Londrina, aqui do Paraná, um dos meus preferidos, que faz contos perfeitos. Infelizmente o segundo melhor conto que já li dele, "Homem ao mar", é de pescaria e não está no livro. Mas o melhor conto que ele já escreveu foi publicado por outra fã na internet e vocês podem ler pra sentir o estilo... "A maior ponte do mundo".

Tem eu que é ilustrado, tem eu nos pequenos detalhes surrealistas, japoneses, escherianos das ilustrações. Até no amarelo com laranja meio over do verso da capa. Então é um livro perfeito pra pegar a estrada e me representar em visita aos amigos. São textos que ficam no limite entre a crônica e o conto... alguns são mais crônica, outros são mais contos e, no final, fechamos o livro sorrindo. Gostei muito!

Como participar?

É simples: escreve aí nos comentários seu nome e seu e-mail. Eu entro em contato para pegar o endereço. Quem for terminando manda pro próximo e assim vai. Eu gostaria que todo mundo me dissesse o que achou, mas não é obrigatório. Vamos?

"O Morro dos Ventos Uivantes", Emily Brontë

Arte de C.E. Montford -
 'Entra! Entra! - soluçava"
Antes de ler vai no youtube e liga a música. (obrigada, Cyntia!)

Li (mas não comprei) a famigerada edição com a referência à série Crepúsculo na capa, já que foi a que me caiu nas mãos. Estava numa das estantes do Leitura sem Fronteiras e eu decidi ler o clássico que a uns 25 anos me recomendam. Desde que eu tinha idade para ler romances. É da editora Leya, selo Lua de Papel, 2009, 292 páginas. E é... incrível, arrepiante. Justifica todas as referências, inspirações, homenagens, adaptações, inclusive as duvidosas.

O mundo de Heatcliff e Catherine é tão diferente da atualidade que é até difícil julgar o enredo com nossos olhos. Só pela quantidade de gente que morre jovem, de doenças que, hoje em dia, são plenamente tratáveis, já se imagina que nunca existiria história como essa em nossos dias. Outra coisa é que dificilmente cinco crianças viveriam, hoje, em um grupo humano tão fechado... onde só tem como referência a si mesmas. Não me admira que elas tenham amado e odiado tanto umas às outras... elas não conheciam mais ninguém! Não tinha escola, não tinha rua, não tinha parque, não tinha nada!


Capa para Penguin Classics Deluxe Editions, criada por Ruben Toledo
Aconteciam tragédias como essa, como Romeu e Julieta? Era assim que o "mundo operava" no quesito "amor de adolescentes"? Como era complicado, difícil, desumano viver... se as pessoas não tivessem a sorte de crescer sem amor algum, sem tesão nenhum, sem expectativa alguma... bum! Tudo acabava em morte, tragédia, vingança, ódio, traição.

Gravura de uma edição de 1940,
Fritz Eichenberg
Um tempo horrível pra se amar, se quiserem que a gente acredite que era mesmo assim que acontecia... e não como nos romances de Jane Austen, onde o idealizado é a beleza e a alegria... ou no Noite e Dia, da Virginia Woolf, que se espera um tantinho mais realista. Ainda bem que eu li esses antes, hein... o peso da história diminui um pouco se comparado com as relativamente contemporâneas, já que se torna surreal. (lembrando que Austen é bem anterior e Woolf bastante posterior, na verdade).


Pra terminar a lista de idiossincrasias, em três anos era impossível juntar uma riqueza que bastasse para comprar uma propriedade rural inglesa. Mas vejam bem, se as coisas corressem em tempos normais, ele não voltaria a tempo, porque... é.

Gravura da edição de 1940,
Fritz Eichenberg
Tudo foi bem amarrado, de certa forma. O livro é muito bem escrito, eu não consegui largar até chegar ao fim, mesmo com essa visão tão triste sobre as pessoas. Será que Emily acreditava nesses monstros que criou? Será que foi tudo um exercício de imaginação? Quão longe alguém pode ir levado pelo ódio e pela vingança? Ou pela letargia?

O livro só vai passar desapercebido para os fortes, os insensíveis e gente que não mergulha no que lê. Eu não sou nenhum dos três e fiquei marcada, meu fim de semana foi ruim, meu humor azedou, o leite coalhou, o bolo murchou, a salada azedou. Mas é essencial. Eu não lembro de ter lido nada tão extremo. Alguns livros falam sobre amor obsessivo (como "A mulher do viajante no tempo"), tentativas de recomeçar amores do passado ("O Grande Gatsby") mas nada que se tenha chamado de "história de amor", que eu tenha lido, chega perto de aterrorizar como "O Morro..."

Com toda certeza, não é uma história amor. É uma distopia, concordam?

Cinco estrelhinhas. Em cinco.

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Mais resenhas, aqui.

25 de fevereiro de 2013

Dos livros medianos e da leitura dinâmica

Eu gosto de ler tudo. E é verdade. Gosto de ler policial, fantasia, aventura, drama, comédia, chick lit, infantil, juvenil, YA, guerra, histórico, contemporâneo, regional, faroeste, antigo, clássico, best seller... De tudo. Só que nessas de "pode vir quente que eu tô fervendo", eu acabo me decepcionando com os livros mornos. Os livros chatos, que não são exatamente ruins, mas também não são verdadeiramente bons.

É aquele livro que não é mal escrito, em termos técnicos narrativos. Diálogos, descrições, coerência, início, meio e fim, tá tudo lá. Mas traz uma proporção de ideias por página tão pequena que me afeta a paciência. Eu não sou ninguém para criticar, claro, é só uma opinião ácida de uma velhinha chata que lê de tudo. Me desculpem autores, editoras e leitores que gostaram desses livros. São todos medianos. Chatos. Não valem resenhas em separado.

Um livro de ficção que é compreensível e suficiente quando se lê de 20 em 20 páginas não é um romance, é um conto. Esses livros são contos cheios de linguiça. Vejam que são todos estrangeiros. Olhem os livros nacionais, os grossos. Cada página se sustenta. A imensa maioria dos novos autores se apresenta em novelas bem escritas, bem focadas, bem cortadas, curtas. Curtas. 120, 150 páginas. Curtas. Tem nada dessa lenga lenga que empurram pra gente em troca de poucas páginas de emoção. Viva a economia dos editores brasileiros!!!

Já falei, em outubro, do "Deuses Americanos", do Gaiman. Foi uma decepção, a não ser pela aparição do senhor Hinzelmann de Munchausen (mas as histórias mais divertidas dele são e-xa-ta-men-te as histórias do barão... o original ali é pouco). Renderiam mais as histórias dos diversos deuses separadamente, tentar misturar tudo num apocalipse mundial das crenças e culturas acabou resultando num troço confuso e sem graça. Acho que esse é o pior dos livros medianos, porque tem 448 páginas!!! Pessoal realmente tem medo de editar (no sentido de cortar, arrumar e melhorar) o Gaiman. Sofrimento puro pra mim e pra quem valoriza o tempo de leitura. Uma estrelinha e meia. Em cinco.

"Um mundo brilhante", T. Greenwood, Novo Conceito. Ganhei no concurso cultural do Fósforo... e talvez nem em um conto fosse bom, mas tem algum roteiro. O protagonista é só um cara, nada demais, não chega nem a ser odiável e desprezível, como muita gente diz. Em 30 páginas a história seria boa: encontrar um cara morto na calçada faz o tiozão lembrar de como a irmãzinha morreu. Em 336 laudas (frente e verso!) é de uma chatice sonífera, ainda mais porque lembra a velha história do nerd fracassado contra o playboy bandidinho. Uma estrelinha. Em cinco.

"Uma era de ouro", Tahmima Anam. Record, 2009, 300 páginas. A capa, como vocês podem ver, é linda, mas... Rehana, uma viúva conta como os dois filhos e a comunidade em que mora se envolveram na guerra de independência de Blangadesh. Não é ruim e é necessário, mas a parte mais interessante, pra mim, é o julgamento da "capacidade" de Rehana criar os dois filhos sozinha... seus filhos acabam passando um ano com o tio materno, bem antes da guerra começar. Nesse caso, poderiam ser dois livros, duas novelas. Duas estrelinhas e meia. Em cinco.

"A noiva do Tigre", Téa Obreht. Leya, 2011, 280 páginas. É o "Deuses Americanos" dos Balcãs. A história da noiva do tigre é ótima. E ocupa cerca de 50 páginas do livro. Outra história boa é o resgate do corpo de um soldado, por sua família, por acreditarem que o enterro feito às pressas devido à guerra, é a causa de uma epidemia de infecções respiratórias entre eles. O Homem sem Morte também é legal. São três histórias ótimas perdidas no meio de uma narração sem sal. Por quê, editores, por quê? Duas estrelinhas. Em cinco.

"Os príncipes da Irlanda", Edward Rutherfurd, 696 páginas, Record. Esse é uma decepção pela falha de apresentação. Na verdade, são vários contos, não um romance histórico coeso. É uma coletânea de eventos sem ligação cronológica ou genealógica entre si. O problema principal é que o editor disse pro Rutherfurd manter o suspense, e as histórias são cortadas sempre que vai acontecer alguma coisa. Parei de ler por angústia, "paúra" mesmo. Duas estrelinhas. Em cinco.

Leitura dinâmica

Minha dica pra quando um livro é chato, mas a história é interessante (tem alguma magia, algum herói, alguma coisa, ainda que mínima, que te prende) é pular. No começo já dá pra perceber quais são os heróis, os vilões, os secundários e os terciários, vá lendo dependendo dos interlocutores. Se é um qualquer, pule. Se o assunto é comida, bebida, sono, sexo ou paisagem, pule. Se não falam do vilão, pule. Se não falam da morte das crianças ou das mães, pule. Pule, pule, pule e o livro fica bom. Uma pena é o desperdício de árvores. 360 páginas de lixo (como no Deuses do Gaiman) são consideráveis, hein? Podiam ser papel higiênico, lenço de papel, bloquinho de multa da lei seca. Pena.

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Resenhas de livros bons, agora, que eu não sou tão velha nem tão chata assim:

O céu dos suicidas, Ricardo Lísias (uma alternativa à altura para "Um mundo Brilhante")
Hotel Atlântico, João Gilberto Noll (outra alternativa... brilhante mesmo, dessa vez)
O sol é para todos, Harper Lee (muitos personagens, muitos acontecimentos, tudo coeso! é possível!)
Buracos, Louis Sachar (poderia ser um conto autônomo de "Deuses Americanos", mas apresentado do jeito que deve ser contado - em separado)

22 de fevereiro de 2013

Série Encontros: Carlos Drummond de Andrade

Emprestei na biblioteca pública da cidade. É da Azougue Editorial, 2011 e tem 229 páginas. A série reúne entrevistas com intelectuais e artistas de várias áreas, buscando retratar a história da carreira de cada um.

O livro é ótimo, como Drummond é ótimo. Mas para quem ainda não conhece a obra, eu digo que primeiro vá ler as poesias pra depois ler esse. Porque aí já se chega amando e compreendendo um pouco melhor o estilo e os saberes dele.

Então eu sentei, abri e amei. [como escreve isso em latim? não seria linda uma tatuagem do tipo Vini, vidi, vinci? hein? hein?]

Então. Parei de escrever aqui, não resisti e fui confabular com consultores de tatuagem, linguagem e design e acabou que saiu! Ainda não sei se vou fazer em latim ou português. O que vocês acham?]



Hein? Hein? Também é um ex libris de respeito.

Voltando ao assunto inicial. Carlos Drummond de Andrade. Entrevistas (tá meio difícil pensar nisso porque hoje também foi inaugurado um tumblr da FemMaterna... o "Que raio de mãe é essa?" e eu tô empolgada com a repercussão e as contribuições... vejam lá! É sobre gente que dá pitaco na maternidade alheia.)

Então o Carlos Drummond de Andrade é um senhor tranquilo, mas que adora uma festa, uma bagunça. No livro ele conta de algumas estripulias que aprontou na juventude e adolescência. Foi expulso da escola por se dizer anarquista ("anarcoide" é a palavra que ele usa no livro). Era uma "anarquia de ideias", porque ele era bem comportado e bom aluno... mas devia estar subvertendo. Imagine, 1919, colégio de jesuítas. Se até hoje  anarquia é tabu...

Tem uns trechos ótimos:
"Passemos por alto pela escola primária. Registrarei apenas as lágrimas com que achei conveniente assinalar a minha entrada no internato, primeiro em Belo Horizonte, depois em Friburgo. Eu, o filho mimado da família, o caçula cheio de dengues, com uma ama particular que lá ia, o prato na mão, para me dar de comer na rua de Itabira, onde me apetecesse almoçar: eu, recolhido a um presídio, sem qualquer espécie de regalia, número entre os números inexpressivos! Lembro-me de uma anotação de diário, em Friburgo: "Hoje, às duas horas da tarde, em pleno salão de estudo, longe da minha família, passei fome".
"Não compreendo bem essa divisão, entre literatura psicológica ou subjetivista e literatura social e objetivista, como se as duas classificações se excluíssem, e pudesse haver literatura não psicológica, ou literatura não social."
A coisa divertida é a modéstia (eu gosto bastante de gente modesta, acho digno, me irritam um pouco os muito confiantes de si) dele... está sempre dizendo coisas como "Eu me considero, no máximo, o maior poeta vivo da rua onde eu moro onde, aliás, não me consta que exista outro poeta". Ele, como Clarice (estou lendo o "Encontros" dela, agora"), quando perguntado pelo sucesso, dizia: "Vamos admitir que no momento eu esteja  na moda.".

Puxando a sardinha pro meu lado, a pergunta da Leda Nagle, no Jornal Hoje em 1980. (eu adorava as entrevistas dela quando era criança, o Sem Censura é meu programa de entrevistas favorito. Lide com isso, Jô Soares.):

O que você acha da questão da mulher hoje no Brasil?
Acho que minha filha Maria Julieta ilustra bem esse esforço da mulher no sentido de ela se construir uma pessoa autônoma, independente, pensando pela própria cabeça e influindo na sua própria vida. As mulheres estão fazendo um grande trabalho nesse sentido. O que eu acho muito simpático. Até então, nós éramos proprietários da mulher. Hoje elas não são mais propriedade nossa. Isso é ótimo.
Ótimo é o livro. Redondinho, rechonchudo, muita opinião e muita história pra gente degustar. Vale cada minuto e cada centavo, vou comprar pra mim, é coisa de guardar. Mas só depois que chegarem todos os meus volumes com a poesia dele!

Cinco estrelinhas. Em cinco.

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Mais resenhas aqui.

20 de fevereiro de 2013

Antologia Poética, Anna Akhmátova

Chegou através da iniciativa do Luciano, o pontoLivro. É uma corrente no estilo "booktour", que ele está promovendo. A edição é L&PM Pocket, tem 203 páginas, introdução, notas, tudo o que é necessário e imprescindível, um trabalho admirável de Lauro Machado Coelho.

Assim que chegou, eu queria ter lido correndo, mas é poesia e poesia... é para poetas. Eu tava lendo aos pulinhos, mas ontem eu estava me sentindo poeta, peguei, e li. Caramba. Tô gostando muito  e acho que vou comprar um exemplar pra mim.

Anna nasceu em 1899 e viveu o czarismo e a revolução. Era uma poeta popular, amada pelos russos, e eu entendi o porquê. Seus poemas são simples e contundentes, bonitos sem enfeites.


Anna Akhmátova (1914), Nathan Altman
O poema Réquiem é um dos mais expressivos e pungentes, sobre o terror estalinista. Nesse trecho de "Epílogo", escrito em 1940, me arrepiou (achei o mais forte de todo o livro). Fala sobre as mães que visitavam os filhos na prisão política, na época em que ela também estava lá. Para ajudar na compreensão (é sempre preciso, pelo menos pra mim): "Dia da Lembrança" é o rito católicos ortodoxos para aniversários de morte e "Maria Preta", (assim como a Black Maria de Guns of Brixton do Clash) é a viatura da polícia política stanilista.

Epílogo, parte 2 (trecho de Réquiem)

Uma vez mais volta o Dia da Lembrança.
Vejo, ouço, sinto por vocês todas:
aquela que mal conseguiu chegar ao fim,
aquela que já não vive mais em sua terra,
aquela que, balançando a bonita cabeça,
disse: "Volto aqui como se fosse o meu lar".
Gostaria de poder chamá-las, a todas, por seu nome,
mas levaram a lista embora, e onde posso me informar?
Para elas teci uma ampla mortalha
com suas pobres palavras que consegui escutar.
Sempre e em toda parte hei de lembrar-me delas:
delas não me esquecerei, nem numa nova miséria.
E se tamparem a minha boca fatigada,através da qual jorra um milhão de gritos,
que seja a vez de todas elas me lembrarem,na véspera do meu Dia da Lembrança.
E se, neste país, um dia decidiremà minha memória erguer um monumento,
eu concordarei com essa honraria,desde que não me façam estátua
nem à beira do mar, onde nasci -meus últimos laços com o mar já se romperam - ,
nem no jardim do Tsar, junto ao tronco consagrado,onde uma sombra inconsolável ainda procura por mim,
mas aqui, onde fiquei de pé trezentas horassem que os portões para mim se destrancassem;
porque, mesmo na morte abençoada, tenho medode esquecer o som surdo das Marias Pretas,
de esquecer como os odiosos portões estalavame como a velha gemia qual animal ferido.
Das pálpebras imóveis, das pálpebras de bronze,deixem que corram lágrimas qual neve fundida,
deixem que as pombas da prisão arrulhem na distânciae que os barcos deslizem em silêncio sobre o Nevá.

Bom é pouco, né? Obrigada Luciano por compartilhar essa beleza de livro!

P.S.: Outro poema perfeito:

A mulher de Lot
E o homem justo seguiu o enviado de Deus,alto e brilhante, pelas negras montanhas.Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar
as rubras torres de tua Sodoma natal,a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,as janelas vazias da casa elevadaonde deste filhos ao homem bem-amado".
Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,seus olhos nada mais puderam ver.E converteu-se o corpo em transparente sale os ágeis pés no chão se enraizaram.
Quem há de chorar por essa mulher?Não é insignificante demais para que a lamentem?E, no entanto, meu coração nunca esqueceraquem deu a própria vida por um único olhar.

Uma resenha que eu li foi estragada por uma frase absurda: "Não é alienada".

Cê, jura, minha filha? Sério? A mulher teve um marido morto e um filho preso por um regime totalitarista. Foi perseguida durante praticamente toda a sua vida adulta. MESMO que só tivesse escrito sobre flores, árvores, arco-íris e passarinhos, não seria alienada NUNCA. Valha-me, Púshkin, eles não sabem o que escrevem!!!
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Mais resenha de poesia:

(eu leio muito mais poesia infantil)

Cada bicho seu capricho, Marina Colasanti
Boi da Cara Preta, Sérgio Caparelli

15 de fevereiro de 2013

Fiscais da vida alheia em: Restaurante não é lugar de criança

Talvez uma nova coluna. Hoje inspirada no post da Tâmara Freire, colega de FemMaterna e blogueira feminista. Infelizmente...
"Os olhares são muitos, de todas as mesas, de todos os cantos do mundo, é o que parece. Acusadores, esquivos, acompanhados de comentários entre os dentes que somente o alvo dos próprios é capaz de notar. A mãe se envergonha, rasga a cartilha em pedacinhos e sai do restaurante, tão rápido quanto pode. Correria se não fosse preciso pagar a comanda. Frustrada pela má conduta do filho, frustrada pela própria fraqueza, frustrada por existir enquanto figura materna imperfeita, neste mundo em que olhares parecem dizer que não se pode “errar” em público. Jamais."

10 de fevereiro de 2013

As lágrimas da girafa, Alexander McCall Smith

Companhia das Letras, 2003, 223 páginas. Veio de Brasília, enviado por um amigo em "crédito" de futuras trocas. Vai pras estantes do Leitura sem Fronteiras em breve, assim que rodar os amigos.

Tem livros que combinam com certos dias. Ontem era sábado, primeiro dia do feriado de carnaval e foi um dia fofo. Tomás acordou às nove horas da manhã, milagrosamente, então eu dormi até às nove da manhã. Acordei, portanto, de bom humor. Arrumamos juntos as camas, lavamos toalhas de banho e lençóis, brincando, rindo e bagunçando um pouco. Fomos almoçar com o papai e ele comeu bem e não fez bagunça no restaurante. À tarde não dormiu (tinha acordado tarde) e foi com o Rodrigo no mercado (então eu pintei minhas unhas e assistir um filme!). Quando eles voltaram, liguei para a Alana, amiguinha dele de 8 anos, que passou o resto do dia conosco. Ela é uma fofa, eles brincam até cansarem, comem até se fartarem, nenhuma discussão, nenhum problema. Nesses (bem raros) dias inteiramente fofos, eu só vejo meu menininho crescendo e tudo é lindo. Então, depois que a cria dorme, a gente lê um livro fofo e o dia fofo termina como começou.

Eu já tinha começado na sexta "As lágrimas da girafa". Mas o que eu tinha lido não era a parte fofa. O livro é mais ou menos, na verdade. É um livro sobre cotidiano, desses em que nada acontece de realmente importante ou relevante. O tempero fica por conta de ser uma história passada em Gandalore,  capital da Botsuana. Fui dar uma olhada nos jornais locais, e o The Voice tem mais fotos que os outros (formatura de pré-escola!), para dar uma sensação de "já estive lá". Enfim, cotidiano. Existe uma mulher, um homem, duas crianças e a vida meio comercial de margarina:
O título do livro faz referência a esse padrão usado no artesanato local.

"O sr. JLB Matekoni pôs à mostra os pistões e os cilindros. Depois, fazendo uma pausa, olhou para as crianças.
'O que está acontecendo agroa, Rra?', perguntou-lhe a menina. 'Vai substituir aqueles anéis de pistão? Para que servem? São importantes?'
O sr JLB Matekoni olhou para o menino. 'Está me acompanhando, Puso? Vê o que eu estou fazendo?'
O garoto sorriu frouxamente.
'Ele está desenhando uma figura no óleo', disse o aprendiz. 'Está desenhando uma casa.'
A menina perguntou: 'Posso chegar mais perto, Rra? Prometo não atrapalhar.'
O sr. JLB Matekoni assentiu com a cabeça e, depois de ela ter feito a cadeira de rodas cobrir a distância que os separava, mostrou-lhe onde estava o problema.
'Segure isso para mim', disse ele. 'Assim.'
'Ótimo', disse ele. 'Agora faça girar esse parafuso. Está vendo qual? Não muito. Assim... Perfeito."
Ele tomou de suas mãos a chave inglesa e recolocou-a numa bandeja, entre as suas ferramentas. Depois se virou e olhou para ela. Ela estava inclinada para a frente em sua cadeira, os olhos brilhando de interesse. Ele conhecia aquele olhar, a expressão de alguém que adora motores. Não dava para fingir; o jovem aprendiz, por exemplo, não tinha tal olhar, e por isso nunca passaria de um mecânico medíocre. Mas essa menina, essa estranha e compenetrada criança que entrara em sua vida, tinha o perfil de uma mecânica. Tinha o dom. Ele jamais o havia visto numa garota, mas ali estava para quem quisesse ver. E por que não? Mma Ramostwe lhe havia ensinado que não havia nenhuma razão para que as mulheres deixassem de fazer o que fosse do seu agrado. E estava absolutamente certa. As pessoas supunham que detetives particulares tinham de ser homens, mas vejam como Mma Ramotswe se saíra bem."
A série
,
Nem todos os dias são assim, hoje já não está sendo. Mas quando é, é lindo, e é bom ter livros que sejam fofos como esses dias. Na verdade esses livros parecem um tanto bobinhos (provavelmente as mães e os pais de Botsuana que leram também pensaram assim, mas não sei) porque a vida não é tão fácil como o livro pinta, nem as relações entre as pessoas tão simples, nem os pensamentos delas tão puramente bons ou maus. Nem as investigações de detetives e as soluções encontradas, eu suponho. Muito menos os "inimigos" são afastados tão facilmente. Mas enfim, como alegoria e utopia ("Alguém tem que ser um escritor utópico" - disse o próprio McCall Smith quando falaram isso pra ele) serve.

Recomendo fortemente ler em um dia alegrinho e tranquilo, senão não se passa do primeiro capítulo. É o segundo livro de uma longa série protagonizada pela detetive Preciosa Ramostwe, que começou com o "Agência no.1 de Mulheres Detetives" e tem mais um livro traduzido, "Moralidade para garotas bonitas.". As traduções no Brasil não continuaram, apesar de os livros estarem vendendo bem lá fora. Mas também, com o preço médio de 40 reais...

Três estrelinhas. Em cinco.

Mais resenhas aqui.