22 de fevereiro de 2013

Série Encontros: Carlos Drummond de Andrade

Emprestei na biblioteca pública da cidade. É da Azougue Editorial, 2011 e tem 229 páginas. A série reúne entrevistas com intelectuais e artistas de várias áreas, buscando retratar a história da carreira de cada um.

O livro é ótimo, como Drummond é ótimo. Mas para quem ainda não conhece a obra, eu digo que primeiro vá ler as poesias pra depois ler esse. Porque aí já se chega amando e compreendendo um pouco melhor o estilo e os saberes dele.

Então eu sentei, abri e amei. [como escreve isso em latim? não seria linda uma tatuagem do tipo Vini, vidi, vinci? hein? hein?]

Então. Parei de escrever aqui, não resisti e fui confabular com consultores de tatuagem, linguagem e design e acabou que saiu! Ainda não sei se vou fazer em latim ou português. O que vocês acham?]



Hein? Hein? Também é um ex libris de respeito.

Voltando ao assunto inicial. Carlos Drummond de Andrade. Entrevistas (tá meio difícil pensar nisso porque hoje também foi inaugurado um tumblr da FemMaterna... o "Que raio de mãe é essa?" e eu tô empolgada com a repercussão e as contribuições... vejam lá! É sobre gente que dá pitaco na maternidade alheia.)

Então o Carlos Drummond de Andrade é um senhor tranquilo, mas que adora uma festa, uma bagunça. No livro ele conta de algumas estripulias que aprontou na juventude e adolescência. Foi expulso da escola por se dizer anarquista ("anarcoide" é a palavra que ele usa no livro). Era uma "anarquia de ideias", porque ele era bem comportado e bom aluno... mas devia estar subvertendo. Imagine, 1919, colégio de jesuítas. Se até hoje  anarquia é tabu...

Tem uns trechos ótimos:
"Passemos por alto pela escola primária. Registrarei apenas as lágrimas com que achei conveniente assinalar a minha entrada no internato, primeiro em Belo Horizonte, depois em Friburgo. Eu, o filho mimado da família, o caçula cheio de dengues, com uma ama particular que lá ia, o prato na mão, para me dar de comer na rua de Itabira, onde me apetecesse almoçar: eu, recolhido a um presídio, sem qualquer espécie de regalia, número entre os números inexpressivos! Lembro-me de uma anotação de diário, em Friburgo: "Hoje, às duas horas da tarde, em pleno salão de estudo, longe da minha família, passei fome".
"Não compreendo bem essa divisão, entre literatura psicológica ou subjetivista e literatura social e objetivista, como se as duas classificações se excluíssem, e pudesse haver literatura não psicológica, ou literatura não social."
A coisa divertida é a modéstia (eu gosto bastante de gente modesta, acho digno, me irritam um pouco os muito confiantes de si) dele... está sempre dizendo coisas como "Eu me considero, no máximo, o maior poeta vivo da rua onde eu moro onde, aliás, não me consta que exista outro poeta". Ele, como Clarice (estou lendo o "Encontros" dela, agora"), quando perguntado pelo sucesso, dizia: "Vamos admitir que no momento eu esteja  na moda.".

Puxando a sardinha pro meu lado, a pergunta da Leda Nagle, no Jornal Hoje em 1980. (eu adorava as entrevistas dela quando era criança, o Sem Censura é meu programa de entrevistas favorito. Lide com isso, Jô Soares.):

O que você acha da questão da mulher hoje no Brasil?
Acho que minha filha Maria Julieta ilustra bem esse esforço da mulher no sentido de ela se construir uma pessoa autônoma, independente, pensando pela própria cabeça e influindo na sua própria vida. As mulheres estão fazendo um grande trabalho nesse sentido. O que eu acho muito simpático. Até então, nós éramos proprietários da mulher. Hoje elas não são mais propriedade nossa. Isso é ótimo.
Ótimo é o livro. Redondinho, rechonchudo, muita opinião e muita história pra gente degustar. Vale cada minuto e cada centavo, vou comprar pra mim, é coisa de guardar. Mas só depois que chegarem todos os meus volumes com a poesia dele!

Cinco estrelinhas. Em cinco.

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Mais resenhas aqui.

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