20 de fevereiro de 2013

Antologia Poética, Anna Akhmátova

Chegou através da iniciativa do Luciano, o pontoLivro. É uma corrente no estilo "booktour", que ele está promovendo. A edição é L&PM Pocket, tem 203 páginas, introdução, notas, tudo o que é necessário e imprescindível, um trabalho admirável de Lauro Machado Coelho.

Assim que chegou, eu queria ter lido correndo, mas é poesia e poesia... é para poetas. Eu tava lendo aos pulinhos, mas ontem eu estava me sentindo poeta, peguei, e li. Caramba. Tô gostando muito  e acho que vou comprar um exemplar pra mim.

Anna nasceu em 1899 e viveu o czarismo e a revolução. Era uma poeta popular, amada pelos russos, e eu entendi o porquê. Seus poemas são simples e contundentes, bonitos sem enfeites.


Anna Akhmátova (1914), Nathan Altman
O poema Réquiem é um dos mais expressivos e pungentes, sobre o terror estalinista. Nesse trecho de "Epílogo", escrito em 1940, me arrepiou (achei o mais forte de todo o livro). Fala sobre as mães que visitavam os filhos na prisão política, na época em que ela também estava lá. Para ajudar na compreensão (é sempre preciso, pelo menos pra mim): "Dia da Lembrança" é o rito católicos ortodoxos para aniversários de morte e "Maria Preta", (assim como a Black Maria de Guns of Brixton do Clash) é a viatura da polícia política stanilista.

Epílogo, parte 2 (trecho de Réquiem)

Uma vez mais volta o Dia da Lembrança.
Vejo, ouço, sinto por vocês todas:
aquela que mal conseguiu chegar ao fim,
aquela que já não vive mais em sua terra,
aquela que, balançando a bonita cabeça,
disse: "Volto aqui como se fosse o meu lar".
Gostaria de poder chamá-las, a todas, por seu nome,
mas levaram a lista embora, e onde posso me informar?
Para elas teci uma ampla mortalha
com suas pobres palavras que consegui escutar.
Sempre e em toda parte hei de lembrar-me delas:
delas não me esquecerei, nem numa nova miséria.
E se tamparem a minha boca fatigada,através da qual jorra um milhão de gritos,
que seja a vez de todas elas me lembrarem,na véspera do meu Dia da Lembrança.
E se, neste país, um dia decidiremà minha memória erguer um monumento,
eu concordarei com essa honraria,desde que não me façam estátua
nem à beira do mar, onde nasci -meus últimos laços com o mar já se romperam - ,
nem no jardim do Tsar, junto ao tronco consagrado,onde uma sombra inconsolável ainda procura por mim,
mas aqui, onde fiquei de pé trezentas horassem que os portões para mim se destrancassem;
porque, mesmo na morte abençoada, tenho medode esquecer o som surdo das Marias Pretas,
de esquecer como os odiosos portões estalavame como a velha gemia qual animal ferido.
Das pálpebras imóveis, das pálpebras de bronze,deixem que corram lágrimas qual neve fundida,
deixem que as pombas da prisão arrulhem na distânciae que os barcos deslizem em silêncio sobre o Nevá.

Bom é pouco, né? Obrigada Luciano por compartilhar essa beleza de livro!

P.S.: Outro poema perfeito:

A mulher de Lot
E o homem justo seguiu o enviado de Deus,alto e brilhante, pelas negras montanhas.Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar
as rubras torres de tua Sodoma natal,a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,as janelas vazias da casa elevadaonde deste filhos ao homem bem-amado".
Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,seus olhos nada mais puderam ver.E converteu-se o corpo em transparente sale os ágeis pés no chão se enraizaram.
Quem há de chorar por essa mulher?Não é insignificante demais para que a lamentem?E, no entanto, meu coração nunca esqueceraquem deu a própria vida por um único olhar.

Uma resenha que eu li foi estragada por uma frase absurda: "Não é alienada".

Cê, jura, minha filha? Sério? A mulher teve um marido morto e um filho preso por um regime totalitarista. Foi perseguida durante praticamente toda a sua vida adulta. MESMO que só tivesse escrito sobre flores, árvores, arco-íris e passarinhos, não seria alienada NUNCA. Valha-me, Púshkin, eles não sabem o que escrevem!!!
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Mais resenha de poesia:

(eu leio muito mais poesia infantil)

Cada bicho seu capricho, Marina Colasanti
Boi da Cara Preta, Sérgio Caparelli

6 comentários:

  1. Sharon!

    Eu não consigo falar de poesia de jeito nenhum, me travo todo e não sai nada, mas quando li gostei da forma como a Ahkmátova escreve.

    Muito obrigado por ter participado, vou linkar a resenha lá n'Os Russos.

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    1. É difícil mesmo. Só consigo dizer "gostei" ou "não gostei". A Anna entrou no pequeno grupo dos que eu consigo ler sem dormir... então!

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  2. Eu amo Marina Colasanti, tenho que dizer isso antes de seguir comentando.

    No mais já me segurei umas trocentas vezes para não comprar essa versão poket da Ahhmatova para esperar minha vez na lista. Amo poesia e em especial a produzida por pessoas que enxergam além de seu umbigo como parece ser o caso.

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    1. Marina Colasanti foi um encontro, Pandora. Vou procurar mais coisas dela, sempre! Tenho que pedir desculpas pra ti, que eu fiquei com o livro mais de três meses. É que não é fácil ler poesia, tem que ter inspiração... Desculpa aí!

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    2. Então eu sou a próxima da lista?!? Massa, já estou começando a contar os dias, horas, minutos para que o livro chegue e eu desculpo sim, quando o livro estiver em minhas mãos. kkkk

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    3. Pandora, o livro faz uma escala em Minas e depois chega até você ;) Guenta aí!!

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