10 de fevereiro de 2013

As lágrimas da girafa, Alexander McCall Smith

Companhia das Letras, 2003, 223 páginas. Veio de Brasília, enviado por um amigo em "crédito" de futuras trocas. Vai pras estantes do Leitura sem Fronteiras em breve, assim que rodar os amigos.

Tem livros que combinam com certos dias. Ontem era sábado, primeiro dia do feriado de carnaval e foi um dia fofo. Tomás acordou às nove horas da manhã, milagrosamente, então eu dormi até às nove da manhã. Acordei, portanto, de bom humor. Arrumamos juntos as camas, lavamos toalhas de banho e lençóis, brincando, rindo e bagunçando um pouco. Fomos almoçar com o papai e ele comeu bem e não fez bagunça no restaurante. À tarde não dormiu (tinha acordado tarde) e foi com o Rodrigo no mercado (então eu pintei minhas unhas e assistir um filme!). Quando eles voltaram, liguei para a Alana, amiguinha dele de 8 anos, que passou o resto do dia conosco. Ela é uma fofa, eles brincam até cansarem, comem até se fartarem, nenhuma discussão, nenhum problema. Nesses (bem raros) dias inteiramente fofos, eu só vejo meu menininho crescendo e tudo é lindo. Então, depois que a cria dorme, a gente lê um livro fofo e o dia fofo termina como começou.

Eu já tinha começado na sexta "As lágrimas da girafa". Mas o que eu tinha lido não era a parte fofa. O livro é mais ou menos, na verdade. É um livro sobre cotidiano, desses em que nada acontece de realmente importante ou relevante. O tempero fica por conta de ser uma história passada em Gandalore,  capital da Botsuana. Fui dar uma olhada nos jornais locais, e o The Voice tem mais fotos que os outros (formatura de pré-escola!), para dar uma sensação de "já estive lá". Enfim, cotidiano. Existe uma mulher, um homem, duas crianças e a vida meio comercial de margarina:
O título do livro faz referência a esse padrão usado no artesanato local.

"O sr. JLB Matekoni pôs à mostra os pistões e os cilindros. Depois, fazendo uma pausa, olhou para as crianças.
'O que está acontecendo agroa, Rra?', perguntou-lhe a menina. 'Vai substituir aqueles anéis de pistão? Para que servem? São importantes?'
O sr JLB Matekoni olhou para o menino. 'Está me acompanhando, Puso? Vê o que eu estou fazendo?'
O garoto sorriu frouxamente.
'Ele está desenhando uma figura no óleo', disse o aprendiz. 'Está desenhando uma casa.'
A menina perguntou: 'Posso chegar mais perto, Rra? Prometo não atrapalhar.'
O sr. JLB Matekoni assentiu com a cabeça e, depois de ela ter feito a cadeira de rodas cobrir a distância que os separava, mostrou-lhe onde estava o problema.
'Segure isso para mim', disse ele. 'Assim.'
'Ótimo', disse ele. 'Agora faça girar esse parafuso. Está vendo qual? Não muito. Assim... Perfeito."
Ele tomou de suas mãos a chave inglesa e recolocou-a numa bandeja, entre as suas ferramentas. Depois se virou e olhou para ela. Ela estava inclinada para a frente em sua cadeira, os olhos brilhando de interesse. Ele conhecia aquele olhar, a expressão de alguém que adora motores. Não dava para fingir; o jovem aprendiz, por exemplo, não tinha tal olhar, e por isso nunca passaria de um mecânico medíocre. Mas essa menina, essa estranha e compenetrada criança que entrara em sua vida, tinha o perfil de uma mecânica. Tinha o dom. Ele jamais o havia visto numa garota, mas ali estava para quem quisesse ver. E por que não? Mma Ramostwe lhe havia ensinado que não havia nenhuma razão para que as mulheres deixassem de fazer o que fosse do seu agrado. E estava absolutamente certa. As pessoas supunham que detetives particulares tinham de ser homens, mas vejam como Mma Ramotswe se saíra bem."
A série
,
Nem todos os dias são assim, hoje já não está sendo. Mas quando é, é lindo, e é bom ter livros que sejam fofos como esses dias. Na verdade esses livros parecem um tanto bobinhos (provavelmente as mães e os pais de Botsuana que leram também pensaram assim, mas não sei) porque a vida não é tão fácil como o livro pinta, nem as relações entre as pessoas tão simples, nem os pensamentos delas tão puramente bons ou maus. Nem as investigações de detetives e as soluções encontradas, eu suponho. Muito menos os "inimigos" são afastados tão facilmente. Mas enfim, como alegoria e utopia ("Alguém tem que ser um escritor utópico" - disse o próprio McCall Smith quando falaram isso pra ele) serve.

Recomendo fortemente ler em um dia alegrinho e tranquilo, senão não se passa do primeiro capítulo. É o segundo livro de uma longa série protagonizada pela detetive Preciosa Ramostwe, que começou com o "Agência no.1 de Mulheres Detetives" e tem mais um livro traduzido, "Moralidade para garotas bonitas.". As traduções no Brasil não continuaram, apesar de os livros estarem vendendo bem lá fora. Mas também, com o preço médio de 40 reais...

Três estrelinhas. Em cinco.

Mais resenhas aqui.

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