25 de fevereiro de 2013

Dos livros medianos e da leitura dinâmica

Eu gosto de ler tudo. E é verdade. Gosto de ler policial, fantasia, aventura, drama, comédia, chick lit, infantil, juvenil, YA, guerra, histórico, contemporâneo, regional, faroeste, antigo, clássico, best seller... De tudo. Só que nessas de "pode vir quente que eu tô fervendo", eu acabo me decepcionando com os livros mornos. Os livros chatos, que não são exatamente ruins, mas também não são verdadeiramente bons.

É aquele livro que não é mal escrito, em termos técnicos narrativos. Diálogos, descrições, coerência, início, meio e fim, tá tudo lá. Mas traz uma proporção de ideias por página tão pequena que me afeta a paciência. Eu não sou ninguém para criticar, claro, é só uma opinião ácida de uma velhinha chata que lê de tudo. Me desculpem autores, editoras e leitores que gostaram desses livros. São todos medianos. Chatos. Não valem resenhas em separado.

Um livro de ficção que é compreensível e suficiente quando se lê de 20 em 20 páginas não é um romance, é um conto. Esses livros são contos cheios de linguiça. Vejam que são todos estrangeiros. Olhem os livros nacionais, os grossos. Cada página se sustenta. A imensa maioria dos novos autores se apresenta em novelas bem escritas, bem focadas, bem cortadas, curtas. Curtas. 120, 150 páginas. Curtas. Tem nada dessa lenga lenga que empurram pra gente em troca de poucas páginas de emoção. Viva a economia dos editores brasileiros!!!

Já falei, em outubro, do "Deuses Americanos", do Gaiman. Foi uma decepção, a não ser pela aparição do senhor Hinzelmann de Munchausen (mas as histórias mais divertidas dele são e-xa-ta-men-te as histórias do barão... o original ali é pouco). Renderiam mais as histórias dos diversos deuses separadamente, tentar misturar tudo num apocalipse mundial das crenças e culturas acabou resultando num troço confuso e sem graça. Acho que esse é o pior dos livros medianos, porque tem 448 páginas!!! Pessoal realmente tem medo de editar (no sentido de cortar, arrumar e melhorar) o Gaiman. Sofrimento puro pra mim e pra quem valoriza o tempo de leitura. Uma estrelinha e meia. Em cinco.

"Um mundo brilhante", T. Greenwood, Novo Conceito. Ganhei no concurso cultural do Fósforo... e talvez nem em um conto fosse bom, mas tem algum roteiro. O protagonista é só um cara, nada demais, não chega nem a ser odiável e desprezível, como muita gente diz. Em 30 páginas a história seria boa: encontrar um cara morto na calçada faz o tiozão lembrar de como a irmãzinha morreu. Em 336 laudas (frente e verso!) é de uma chatice sonífera, ainda mais porque lembra a velha história do nerd fracassado contra o playboy bandidinho. Uma estrelinha. Em cinco.

"Uma era de ouro", Tahmima Anam. Record, 2009, 300 páginas. A capa, como vocês podem ver, é linda, mas... Rehana, uma viúva conta como os dois filhos e a comunidade em que mora se envolveram na guerra de independência de Blangadesh. Não é ruim e é necessário, mas a parte mais interessante, pra mim, é o julgamento da "capacidade" de Rehana criar os dois filhos sozinha... seus filhos acabam passando um ano com o tio materno, bem antes da guerra começar. Nesse caso, poderiam ser dois livros, duas novelas. Duas estrelinhas e meia. Em cinco.

"A noiva do Tigre", Téa Obreht. Leya, 2011, 280 páginas. É o "Deuses Americanos" dos Balcãs. A história da noiva do tigre é ótima. E ocupa cerca de 50 páginas do livro. Outra história boa é o resgate do corpo de um soldado, por sua família, por acreditarem que o enterro feito às pressas devido à guerra, é a causa de uma epidemia de infecções respiratórias entre eles. O Homem sem Morte também é legal. São três histórias ótimas perdidas no meio de uma narração sem sal. Por quê, editores, por quê? Duas estrelinhas. Em cinco.

"Os príncipes da Irlanda", Edward Rutherfurd, 696 páginas, Record. Esse é uma decepção pela falha de apresentação. Na verdade, são vários contos, não um romance histórico coeso. É uma coletânea de eventos sem ligação cronológica ou genealógica entre si. O problema principal é que o editor disse pro Rutherfurd manter o suspense, e as histórias são cortadas sempre que vai acontecer alguma coisa. Parei de ler por angústia, "paúra" mesmo. Duas estrelinhas. Em cinco.

Leitura dinâmica

Minha dica pra quando um livro é chato, mas a história é interessante (tem alguma magia, algum herói, alguma coisa, ainda que mínima, que te prende) é pular. No começo já dá pra perceber quais são os heróis, os vilões, os secundários e os terciários, vá lendo dependendo dos interlocutores. Se é um qualquer, pule. Se o assunto é comida, bebida, sono, sexo ou paisagem, pule. Se não falam do vilão, pule. Se não falam da morte das crianças ou das mães, pule. Pule, pule, pule e o livro fica bom. Uma pena é o desperdício de árvores. 360 páginas de lixo (como no Deuses do Gaiman) são consideráveis, hein? Podiam ser papel higiênico, lenço de papel, bloquinho de multa da lei seca. Pena.

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Resenhas de livros bons, agora, que eu não sou tão velha nem tão chata assim:

O céu dos suicidas, Ricardo Lísias (uma alternativa à altura para "Um mundo Brilhante")
Hotel Atlântico, João Gilberto Noll (outra alternativa... brilhante mesmo, dessa vez)
O sol é para todos, Harper Lee (muitos personagens, muitos acontecimentos, tudo coeso! é possível!)
Buracos, Louis Sachar (poderia ser um conto autônomo de "Deuses Americanos", mas apresentado do jeito que deve ser contado - em separado)

4 comentários:

  1. Sharon, eu adorei o "Um Mundo Brilhante", apesar de ter achado o carinha um fraco! Como são as coisas não? Estou com o Deuses Americanos aqui para ler, mas não sei quando terei tempo - acho que em breve, se eu der a louca e mudar o blog do jeito que estou pensando em fazer.

    Ah, um segredo: quando não gosto, pulo mesmo!

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    1. Ele é fraco, mas não tenho nada contra o personagem em si. Achei até bem feitinho, sabe, um cara fraco, sem vontade, enfim. Se fossemos pensar que é um "Retrato do protagonista enquanto um fraco", o livro melhora um tantinho, mas ainda é chato. Mas acho que não era pra ser isso, né?

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  2. O Gaiman é um escritor limitado, mas tem um truque ótimo: Nessa história de conceitos encarnados do Sandman e de alguns contos (como "A vez de Outubro") ele rouba no jogo porque o próprio nome dos protagonistas traz uma série de sentimentos e significados que ajudam a história a ter esse tom épico/sentimental que aprendemos a apreciar na obra de Sir Gaiman.

    Ao trabalhar com personagens que são pura figura de linguagem (num nível que fica até difícil de enquadrar qual) o leitor facilmente preenche a obra de significados "profundos" e "pessoais". Similar, mas mais admirável (e estou resistindo a usar mais fácil) que o expediente de puro vazio da auto-ajuda e do horoscopo.

    Quando ele vai trabalhar com deuses a coisa muda um pouco de figura, afinal os deuses são personagens mais definidos e pertencem à suas culturas específicas. Ler "Deuses Americanos" e encontrar significações próximas do que quando lemos as histórias do Sonho, da Morte ou da Desespero além de exigir repertórios mais específicos não garante a mesma vibração em todas as variáveis (eu gosto da cultura grega, mas tem um monte de gente que eu conheço que é "fã" da cultura nórdica [troo] ao mesmo tempo, sou nerd, esses novos deuses são ao mesmo tempo patéticos e simpáticos, outra pessoa, menos licenciosa, provavelmente não vê graça alguma).

    Some aí o fato de que o protagonista não tem um pingo de carisma. Shadow (nome apropriado) deveria ser a personagem humana, de identificação do leitor, mas falha miseravelmente nesta tarefa.

    De resto, "Filhos de Anansi", que faz parte do "universo expandido" de Deuses Americanos é muito mais divertido - previsível - mas divertidíssimo.

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    1. Eu não sinto essa necessidade de me identificar com o protagonista ou qualquer outra personagem pra gostar de um livro, achei que o Shadow passa, não é a minha maior crítica. Pelo menos ele também fica puto com essa história de rodar o país sem motivo algum. Então até que ele tem um pouco de febre no sangue.

      Mas é mesmo, você tem razão... deuses são bem mais específicos que Sonho, Morte... e nessas histórias realmente o Gaiman é mestre. "A vez de Outubro" é lindo. O negócio é que ele virou mito, "está na moda", como diria Drummond, e qualquer coisa que ele assine vende como água, mesmo se for ruim. "Deuses" não é horrível, a história do Hinzelmann e da cidadezinha lá é bem legal e tem alguns relances de possíveis histórias ótimas... como eu disse acho que o problema foi ele misturar tudo num romance confuso e chato. Faltou coragem de editor, se o Gaiman fosse iniciante tinha saído um livro de contos maravilhoso.

      Eu fico triste só de pensar como seria fodástico!

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