10 de junho de 2013

Feminismo, maternidade e capitalismo: tá difícil de conciliar as políticas?

"Tá tendo" um debate gigante e importante entre o feminismo e a maternidade. Eu queria falar da minha posição aqui, que difere muito de algumas feministas. Eu acredito que ser mãe não apaga a identidade da mulher. Também não compromete sua autonomia - quem compromete a autonomia da mãe ou do pai que desejam ficar em casa por mais tempo para cuidar das crianças é o mercado, é o sistema político em que vivemos - e não a maternidade em si.

Mas vamos por partes. Eu preciso deixar claro o que é família e maternagem... também tenho uma visão um pouco diferente da tradicional sobre esses termos.

Família é o grupo de pessoas unidas por parentesco de afeto, legal ou de sangue, que forma a base da sociedade, onde a maioria das pessoas é socializada. Nem sempre famílias tem crianças. Famílias podem ser um casal, dois irmãos, duas irmãs, um tio e um sobrinho, um neto e um avô, ou amigos que se dão bem e resolvem morar juntos e dividir despesas. A existência de crianças na família a torna um pouco diferente, porque as crianças exigem uma série de cuidados, que devem ser exercidos por adultos, para que formem sua personalidade e cresçam saudáveis e, como todos gostaríamos (eu espero), sejam felizes.

Maternagem, pra mim, como feminista que pensa a maternidade, é o cuidado com as crianças exercido pelos adultos da família a que elas pertencem. Então, além da mãe, o pai materna e outros familiares, não nucleares, podem maternar também, o tio, a tia maternam. A vó materna. E como hoje, na maioria dos casos, a maternagem é exercida por uma mulher, o que traz várias características, situações e especificidades, eu considero as questões da maternidade partes importantes do meu feminismo. Eu quero, sim, ajudar as mães.

Mãe é uma mulher (mulheres trans são mulheres) que exerce a maternidade de uma ou mais crianças que a consideram mãe. Ela pode exercer essa maternidade de forma solo, ou dividir essa tarefa com algum parente próximo, a avó ou o avô das crianças, um tio ou uma tia delas, por exemplo. É um pouco mais raro que um homem (homens trans são homens), sozinho, exerça a paternidade, mas isso também pode ocorrer. Existem muitos casos em que o cuidado com as crianças é exercido por cônjuges, que possuem também um relacionamento entre si. Mas não necessariamente serão um casal formado por mulher e homem. Pai e mãe nem sempre têm vínculo biológico com essas crianças, podem ser definidos assim pela relação de afeto que existe na família. É essa relação de afeto e amor que vai definir a família e diferenciar "cuidar" de "maternar".

Dinheiro é, aqui, a voz de quem é dono do capital. Voz de quem, hoje, tem o poder de organizar quem entra e quem sai da roda da fortuna no mundo - políticos, empresários, investidores, diretores, acionistas.

Política é a forma do ser humano se organizar em sociedade. É como as pessoas conversam entre si, constroem suas estruturas de auxílio mútuo, de garantia de direitos e de suprimento dos desejos de cada um. A política, pra mim, deve procurar ouvir a todos e buscar sempre satisfazer as necessidades de cada um, para que todos consigam buscar seus desejos sem empecilhos estruturais.

Essa conversa não é sobre mães ou pais que suspendem o trabalho para maternar por falta de alternativa - por falta de creche, por salários baixos que não compensem o trabalho, por falta de apoio familiar... essas pessoas são o elo mais fraco da sociedade e precisamos ajudá-las urgentemente. O que está me incomodando bastante são teóricas e ativistas feministas que estão excluindo, das "escolhas feministas", a decisão da mãe, da mulher, de assumir, como principal, o trabalho de cuidado. Das mulheres decidem maternar entre outras opções de carreira. Por exemplo, a Iara Paiva critica a decisão de a mulher dar um tempo no trabalho e na carreira para exercer maternagem como prioridade:
"Eu acho perfeitamente possível que uma mulher escolha isso pra si [suspender a carreira em favor dos filhos] e se sinta feliz e realizada. Meu problema é se ela defender isso como uma escolha feminista. Porque não é. É algo que está no campo das contradições, as mesmas que eu tenho na minha vida pessoal e que fiz questão de apresentar. Essa mulher, assim como eu, não é menos merecedora de respeito e dignidade. Respeito sua escolha individual, mas se ela apresentar isso publicamente como feminista, não vou arrancar carteirinha, mas vou criticar o discurso. Vou problematizar, vou dizer que se não contempla perspectivas de diferentes modelos de família e de classe sociais, é um discurso falho. Vou dizer que ela, como eu, está reforçando a imagem de que não vale a pena investir em treinamentos corporativos para as mulheres, porque elas estão mais dispostas a abdicar da carreira. E claro, que por mais que ela pessoalmente se sinta bem e “empoderada”, não há nada de empoderador em ter não ter renda própria se a nossa autonomia no mundo capitalista está diretamente relacionada ao dinheiro. E claro, por fim, se os pais, de maneira geral, ganham mais do que as mães, é porque ainda se encara o salário deles como “provedor” – e quando as mulheres saem do mercado de trabalho só endossam isso. Não acho que ninguém tem que ser condenada por não querer deixar filha na creche, mas feminista é delegar cuidado das crianças, não centralizá-lo. E tudo bem fazer escolhas não-feministas. Eu também faço, como contei. Ninguém é feito só de coerência política. Somos, as pessoas todas, feitas de afeto, de paixões, de impulsos." Leiam tudo aqui.
Eu acredito que a Iara, nesse comentário, misturou duas coisas que devem ser separadas. Uma, a decisão da mulher pela perda de autonomia financeira e outra, o que o dinheiro obriga as mulheres a fazer para lhes permitir ter carreira. Pra mim, o feminismo não tem que "respeitar" a escolha da mulher que fica em casa. Ele tem que sustentar essa liberdade. O feminismo tem que abraçar as liberdades das mulheres. Não é complicado resolver a questão da autonomia financeira, se considerarmos justificado e essencial o cuidado de qualidade das crianças e a autonomia da família sobre ele: melhores tempos de licença parental dão conta disso.

Existe uma política interessante nos países europeus de uma licença parental suficiente, que satisfaz as demandas dos pais e mães (e a culpa e a consciência também) - um ano para cada responsável, por exemplo, contemplando dois anos de vida da criança: a humanidade precisa de crianças, de nascimentos. O pai é tão capaz e responsável pelo cuidado familiar das crianças quanto a mãe. Mas pra conseguir ficar um ano cuidando exclusivamente das crianças, os pais tem que aprender a cuidar desde sempre - por isso, eu, como feminista, vejo como um dever mesmo, uma obrigação, o cuidado exercido - e dividido - pelo homem que gerou/adotou a criança desde o nascimento ou adoção. Eu não considero suficiente a visão atual do pai, no Brasil, o "provedor".

E na minha ideia de política, temos que escutar as pessoas conversar. E uma das funções do feminismo, pra mim, é escutar as mulheres e reverberar, ampliar as vozes delas. Assim, a mãe decidir cuidar dos filhos pessoalmente ou delegar esse cuidado não é matéria de crítica do feminismo, é matéria para apoio do feminismo. O feminismo tem que se preocupar em sustentar, de novo, a liberdade das mulheres em serem mães como quiserem ser. Quem quer ficar em casa, terá dois anos de licença parental. Quem quer trabalhar, terá creche, babá, escolinha, berçário... conforme desejar e achar melhor pro seu filho e pra sua família. 

Mas algumas feministas julgam e criticam a mulher que quer ficar em casa além da licença parental, como a Iara colocou, dizendo que isso vai vai atrapalhar todas as mulheres porque "escutem só o que o dinheiro diz!" E então o feminismo afasta essas mulheres intencionalmente! E além do mais, é complicada essa visão, né? Não me parece muito feminista defender as idéias dos capitalistas em detrimento da vontade da mulher. Nisso eu discordo completamente, esse tipo de justificativa não me representa. Delegar a liberdade das mulheres às decisões do capital? Nunca!

Se é considerado conservador ficar em casa para criar os filhos é também conservador delegar o cuidado apenas porque o dinheiro precisa disso. A gente vai delegar o cuidado porque a mãe ou o pai querem trabalhar, estudar, ir no museu, viajar, plantar batata, pescar, nadar no mar, fazer bagunça, ir no show de rock, de sertanejo, no baile funk, porque deu na veneta de uma mãe ou um pai delegar esse cuidado, enfim, e não porque as empresas precisam de mães e pais que trabalhem tantas horas por dia ou “rendam o investimento aplicado em treinamento”. Não podemos considerar as imposições do sistema como essenciais para o comportamento das mulheres.

Não podemos trocar o essencialismo biológico pelo essencialismo mercadológico.

Não é valorizando ou elencando como bandeira a terceirização ou a delegação do cuidado à força, à revelia da mulher que é mãe, que o feminismo deve conversar com o capital. O feminismo precisa sustentar as escolhas conscientes das mulheres quando elas são contrárias às necessidades do dinheiro! Principalmente aí, porque o dinheiro é que não vai sustentar essa liberdade!

Não consigo aceitar que o feminismo coloque na balança a voz das mulheres e a do dinheiro e escolha como mais importante as necessidades do mercado! Mas também não acho que temos que ignorar a voz do dinheiro, dinheiro é bom. Mas precisamos conciliar o desejo das mulheres, a ética do cuidado que elas apresentam como alternativa à ética do dinheiro. Acho que ISSO É A MINHA REVOLUÇÃO.

Mas e o dinheiro? Nós vamos dizer que, como ideia política, o capitalismo está errado. A mulher (inclusive as que adotam crianças) devem ter a liberdade de decidir sua maternagem independente do que o capital pague, queira ou precise! Nós vamos buscar formas de conciliar as necessidades do dinheiro com as necessidades das mães, porque o feminismo entende que existem dificuldades econômicas, administrativas, tributárias de quem está empregando sim, mas elas não tem preferência sobre pessoas!

Política é para gente, não para dinheiro. Feminismo atende gente (preferencialmente mulheres) e não ao capital. Colocar o dinheiro na frente da voz da mulher é feminismo?

Então, se os empresários não estão treinando, aceitando, investindo em mulheres por conta da maternidade, contra o que acreditamos ser fundamental - autonomia da família na decisão de maternar, nós vamos buscar alternativas. O Estado pode assumir ou subsidiar alguma parte desse treinamento? Pode fazer isenção de impostos, ou descontos, para garantir equilíbrio no treinamento de homens e mulheres? O Sindicato das Mulheres Trabalhadoras (SMT) pode sugerir uma substituta competente, e com o mesmo treinamento, para suprir essa vaga?

Como a gente pode sustentar, como feminismo, a liberdade da mulher suspender o trabalho pelo tempo que lhe der na telha (por motivos de maternidade ou não, ué, mulher fica doente, vai tomar banho de mar, vai no show de rock e no baile funk etc) em frente às necessidades do mercado de trabalho? Isso é que é revolução, isso é que é feminismo, e não como algumas feministas estão sugerindo – que o feminismo exclua como "não é minha" a voz dessas mulheres!

4 comentários:

  1. É isso, acho que o Feminismo tem que se certificar que mães não sejam marginalizadas, que as pessoas não sejam diminuídas por optarem por profissões de cuidado, por exemplo.

    bj

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  2. Chato esse feminismo que cataloga as feministas e que já não faz nenhuma resistência a estrutura econômica - essa sim, razão de toda opressão. Machismo eh sociocultural? Sim. Mas qual sociedade está descolada da economia e produção? Esse feminismo que naturaliza nosso sistema econômico e só pauta cultura "machista"não dá pra mim...

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  3. As feministas dos anos 60 foram manipuladas por (homens) industriais que incentivaram seus anseios de emancipação financeira como forma de garantir que as famílias tivessem duas rendas e eles pudessem lucrar mais. Essa virtual "libertação" feminista só piorou a qualidade de vida da mulher, enclausurada agora em sub-empregos. Além disso, desestruturou a família, possibilitando o aumento da criminalidade juvenil, baixou os valores dos salários de forma geral, contribuiu com a devassidão moral, as doenças venéreas, a orfandade, entre tantos outros males da "modernidade". Vítimadas pela engenharia social, as mulheres de hoje são menos felizes e realizadas que há 50 anos. E o culpado por isso, pra variar, é o porco do homem, não é, garotas?

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    1. Eric. Os anseios das mulheres dos anos 60 são anseios das mulheres de todas as épocas. A mulher quer sim participar do mundo fora de casa, não foi nenhuma manipulação ou ilusão. As condições dos trabalhadores são ruins para todos, não é? Para as mulheres são piores sim, e continuamos querendo trabalhar fora.

      As mulheres de hoje não são menos felizes e realizadas que há 50 anos. Elas são diferentes.

      Agora, culpar a mulher trabalhadora pelo que você chama de "desestruturação da família" é um argumento próximo do masculinismo. Quem "desestrutura a família" é o homem, quando sai de casa e abandona os filhos. Essa atitude é endossada pela sociedade, o homem não é estimulado a criar vínculos com os filhos.

      "devassidão moral", desculpe, não é "mal" nem "moderno".

      Beijo!

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