O resgate dos ricos panos

Sharon Caleffi
(quer ler no celular? baixe o epub!)
Edição da autora
Pato Branco, setembro de 2013
Agradecimentos
"O resgate dos ricos panos" é uma historia inventada a muitas "mãos", apesar de que, provavelmente, só eu tenha a vertido para texto. Ela aconteceu em quatro ou cinco sessões de RPG em 2002 ou 2003. Eu fui Talia, uma dançarina famosa e um pouco inquieta. Duna e Sagan foram "nascidos e vividos" por dois amigos meus, Tiago Perreto e Jorge Luís Ferreira Enomoto. Também não posso deixar de reconhecer o criador da maior parte do cenário e da situação onde Talia, Duna e Sagan se "conheceram". Foi Eduardo Capistrano a principal mente criativa da história. Como em todo RPG, tudo o que não é ação direta de um jogador vem do livro ou do narrador... e, no caso, o Eduardo era nosso livro e nosso narrador. Não tenho como dizer que a história é minha, apesar do ponto de vista ser da Talia porque sem eles nada aconteceria. Muito obrigada aos meus colegas de mesa e de criação! Muitas saudades das nossas sessões semanais de aventura!

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O resgate dos ricos panos
Divertida aventura em seis partes, onde o leitor poderá descobrir como uma dançarina corajosa, um viajante experiente e um lenhador destemido se conhecem e estabelecem amizade entre si, enquanto combatem duvidosos assaltantes de cargas e as assustadoras feras do pântano conhecidas como slurps.
Parte 1 - Garotas só querem se divertir
Onde se admira o cotidiano agitado de uma capital de província e os negócios entabulados por seus habitantes e forasteiros, negócios esses que propiciam toda sorte de associação entre pessoas dos tipos mais variados.

Talia Stivatti é a dançarina principal da famosa taberna Asas Azuis, em Pouso das Garças, capital da província de Tipari, uma das mais ricas terras do reino de Valoton. Depois de alguns anos de carreira e muita economia com as gorjetas, conseguira uma sociedade com o taberneiro e vivia bem, apresentando-se somente nos finais de semana, com a casa cheia. Mas não havia nada para fazer nos outros dias. Talia era solteira, não tinha filhos nem família, só tinha que cuidar de si (o que, para uma dançarina de taberna, é bastante coisa). Nessas horas de tédio, em que tornava-se uma moça comum e não o sonho e desejo dos homens bêbados de longe e de perto, sentava-se na frente da taberna, olhando o forte movimento comercial da cidade e lendo os anúncios de negócios e trabalho para aqueles que buscavam oportunidades e não sabiam ler. Numa dessas manhãs, bem cedo, se aproxima um jovem forte, alto, vestido com roupas grosseiras mas bem costuradas, carregando um machado. Talia já o tinha visto algumas vezes na taberna, acompanhado pelos amigos ou pelo pai. Era lenhador de alguma fazenda dos arredores. Ele se aproximou e disse querer encontrar um trabalho com "ação". A moça começa a ler:
Hum... ação, é? Você sabe usar bem esse machado? Parece que sim... então deixa eu ver... "Guilda dos Banqueiros contrata escolta para Duradouro, viagem de vinte dias."
Onde fica isso aí, Duradouro?” – pergunta o rapaz.
Nunca ouvi falar, mas é um pouco longe... vinte dias de viagem!”
Então não. Tem outra coisa?”
Hum... cozinheira... carpinteiro... ah, sim! Aqui! "Fazendeiro contrata carroceiros e escolta para entrega de grãos em Velho Carvalho". Isso é perto, eu conheço, já me apresentei numa taberna de lá.”
Mas a estrada é tranquila demais... eu quero usar meu machado! – o rapaz acerta alguns golpes contra o ar para mostrar que não está brincando.” – Talia ri.
Tá bem... vamos ver outro, então, senhor?”
Sagan!”
Sagan de quê?”
Sagan...” – o rapaz pensou um pouco, parecia querer um nome interessante e sorriu quando encontrou um que o agradou: – "Sagan, o Maldito". – Talia riu da vaidade juvenil do rapaz.
Bem apropriado para um homem de ação! Deixa eu ver... tem esse! Uso certo pro seu machado! "Guilda Agulha e Linha paga boa recompensa por resgate de carga roubada".
Opa! É esse mesmo! Muito obrigado, dona Talia! Quando eu tiver resgatado essa carga e pegado esses bandidos venho aqui e bebemos uma cerveja juntos! Eu pago!”
Combinado. Até!”
Talia estava sentando novamente no seu banco quando se aproxima outro homem. Jovem, mas um pouco mais velho do que Sagan, o Maldito (Talia quase ri ao lembrar do nome) e também forte. Vestia trajes que deveriam ter sido bonitos algum dia, mas estavam desgastados e sujos da estrada. Mas não exatamente maltrapilho. "Outro homem de ação, e esse deve estar viajando há tempos", Talia pensou. Mas como ele se voltou para ler os anúncios, Talia sentou.
Desculpe, senhorita... “ – falou o homem com delicadeza, na língua imperial. Era um forasteiro.
Sim?” – Talia estranhou aqueles modos educados, que não combinavam com a aparência desgastada do estrangeiro.
Esses anúncios não estão na língua imperial... a senhorita poderia me ajudar, por favor?”
Claro, com prazer, é quase um trabalho meu, na verdade!” – Talia estava começando a achar interessante aquela gentileza toda... – “O que o senhor procura, mais exatamente?”
Um trabalho para meus músculos que seja rápido e pague bem!” – respondeu sorrindo o moço, o que também fez Talia sorrir.
Ah, sim! Um moço acabou de encontrar um trabalho interessante, resgatar uma carga roubada da guilda Agulha e Linha!”
Parece bom, onde fica essa guilda, a senhorita poderia me explicar?”
Depois de ensinar a direção ao forasteiro, Talia começou a pensar na vida que levava durante a semana. Ajudar as pessoas a ler era útil, claro, e divertido, pois conhecia pessoas interessantes, como esses dois rapazes de hoje, mas não tinha muita emoção. E ela queria se divertir, se emocionar, sentir medo, coragem, se aventurar. Então, resolveu arriscar e tentar o trabalho da guilda também. Afinal, já tinham dois caras grandes. Uma mulher bonita viajando com eles disfarçaria suas intenções. E ela não era nenhuma boba em termos de luta, afinal, continuava solteira e dona de si por seus próprios esforços. E os esforços de suas facas. Não era pouco, não era não. E foi.

***
Parte 2 - E vamos aos negócios
Onde o viajante e a dançarina demonstram grande poder argumentativo e de convencimento ao ajustar os termos em que prestarão serviço de resgate a uma rica guilda da cidade.

Talia chega na sede da guilda "Agulha e Linha" quando o último dos jovens, o forasteiro educado, está se apresentando para o senhor Tremelassé, o orgulhoso e arrogante chefe da guilda, frequentador assíduo da taberna... e um dos maiores conhecedores de vinho da cidade também. O jovem dizia, em um tom decidido:
Com licença, senhor! Atendo por Vagante das Dunas e estou à procura de trabalho! Vi seu anúncio na taberna dos Bravos e gostaria de me candidatar. Venho das terras do deserto e tenho vasta experiência com viagens, carregamentos, escaramuças, combates solo e em equipe, desmantelamento de quadrilhas, ataque a acampamentos de bandoleiros, investigações, rastreios, resgates de donzelas...”
Sim, sim!” – o chefe da guilda interrompe a falação um pouco irritado, mas parece convencido. E Talia está até um pouco impressionada, o rapaz é bom em gabar-se. Tremelassé continua:
Como é mesmo o seu nome... Viajante da Areia?”
Vagante das Dunas, senhor! Também conhecido como Duna, simplesmente.”
Está certo... melhor assim. Senhor Duna. Então você tem experiência, meu rapaz... muito bom. O outro moço que se apresentou é forte e decidido, mas mal acabou de sair dos cueiros...”
Ei!” – Sagan se levanta de um banco onde estava sentado, irritado. – “Eu sei lutar! Eu, eu...”
Calma rapaz... você já está contratado, lembra-se? Mas precisa de uma cabeça pra te guiar, mesmo que você não saiba disso...” – vira-se para Duna e continua: – “Muito bem, então, senhor Duna. Está contratado. E acho que dois fortões como vocês é o suficiente. Um dos meus aprendizes irá com vocês para verificar a carga e cuidar dos tecidos mais preciosos. Vocês terão que ir até o esconderijo dos assaltantes, localizado em algum ponto entre a nossa cidade e Velho Carvalho e trazer a carga e o líder do bando e meu aprendiz incólumes. O restante do bando não interessa. São 5 peças de prata pelo serviço.”
Nada feito”, diz Duna. – “Uma peça de ouro ou nos juntamos aos bandoleiros e vendemos sua carga.”
O senhor Tremelassé, ao contrário de Talia, não parece acreditar no blefe, mas sorri:
O senhor sabe negociar, senhor Duna... mas não posso pagar uma peça de ouro para dois rapazes... não tenho garantias de que vão executar o serviço da forma correta!”
Talia percebeu a deixa e adiantou-se:
Dois rapazes e uma mulher! Desculpe interrompê-lo, senhor Tremelassé, mas eu também estou interessada nesse serviço! O senhor me conhece há anos, sabe que eu sei me defender bem quando é preciso...”
Mas! Senhorita Talia!” – o chefe da guilda parecia ultrajado – “Que desplante! Uma mulher combatendo bandidos da pior espécie! Eu nunca permitiria! Jamais! Sou um cavalheiro e...”
A não ser... que essa mulher fosse ótima com facas, não? Vamos lá, Tremelassezinho... o senhor já viu o que eu faço...”
Você vai atrapalhar os rapazes! Atrasá-los! Eu preciso da carga o quanto antes!!!”
Duna interrompeu:
De forma alguma, senhor Tremelico... ah...senhor! A senhorita não atrapalharia... pelo contrário, uma mulher viajando conosco seria inclusive um bom disfarce...”
Sagan emendou:
Eu defenderei a senhorita Talia, senhor!”
É exatamente isso que eu temo, meu rapaz, vocês querendo defender a senhorita indefesa ao invés de atacar o bando... mas tem razão, senhorita Talia... você sabe se virar, não é exatamente uma senhorita indefesa, não é? Eu sei disso. Temos pressa em reaver este carregamento e creio que a senhorita é a melhor pessoa para reconhecer os panos mais valiosos, que precisam ser carregados com mais cuidado. Assim não vou precisar enviar um dos meus aprendizes com vocês. Os deuses sabem que todos são mais covardes que uma mocinha... Mas tome cuidado, não quero conflitos com seu patrão se você for machucada e não puder mais se apresentar...”
Sócio, senhor, eu sou sócia do Jones e da Guta.”
Tremelassé faz um gesto de impaciência com as mãos, como se os enxotasse:
Muito bem, muito bem, detalhes não importam. Vocês já sabem de tudo e o preço está acertado. Uma peça de ouro. Estou pagando metade agora para o senhor Duna, e o restante vocês recebem na entrega da mercadoria e do líder do bando. Se ambos estiverem intactos, como combinamos. Venham, vou mandar selar cavalos para todos.”
E partiram. Sagan estava contente com seu primeiro trabalho como homem de ação e começou a falar sobre como mataria os bandidos com o seu machado. O primeiro ele pegaria de cima pra baixo, o segundo de lado a lado, o terceiro... Duna e Talia bem que tentaram se deixar contagiar pela empolgação simples do rapaz, que nunca havia encontrado bandidos de verdade antes... Mas, em Tipari, ou em qualquer outro lugar que Duna e Talia conhecessem, as pessoas aprendiam depressa que a vida é um a coisa frágil. E que armas, se não matam, machucam fundo. Nada era muito fácil no tempo em que viviam, fosse você um viajante saído do deserto ou uma moça sozinha tentando viver por seus próprios meios.
Depois de três horas de cavalgada, Duna pede silêncio. Estão chegando a uma pequena aldeia, no encontro de um riacho com o rio principal da província, o Garças Azuis. O lugar era bem simpático. As cabanas eram pequenas e, pelas redes, barcos e apetrechos, se percebia que a maioria dos habitantes trabalhava com pesca. Tudo era sombreado por grandes e pequenas árvores frutíferas, aqui e lá.... mas estava tranquilo, tranquilo demais. Duna perguntou aos companheiros:
Vocês já estiveram aqui? Moram famílias, crianças?”
Sim, sempre tem crianças correndo por aqui...” – lembra Sagan, imediatamente percebendo o que Duna quer dizer e, entusiasmado, falou mais alto: “Sempre tinha crianças, é claro, até que os bandidos chegaram!”
Fale baixo! Eles não nos perceberam ainda”, alerta Duna. – “Vamos voltar um pouco, desmontar e esconder os cavalos.”
***
Parte 3 – Três surpreendentes personagens
Em que se dá o, mais tarde, famigerado, episódio do “resgate dos ricos panos”, embate entre o recém formado grupo de aventureiros e um bando de ladrões. Um momento decisivo para a vida dessas três personagens que então podem se conhecer mais apropriadamente e descobrir admiráveis qualidades em seus companheiros.

Deixaram os cavalos amarrados a uma boa distância da pequena aldeia, para que ninguém os escutasse. Voltaram silenciosamente e investigaram os arredores. Encontraram a carroça da guilda, vazia, jogada em um barranco do rio. Estava escondida da estrada, mas não de alguém que viesse de barco ou fizesse uma pequena investigação. Também não havia vigias. Três pessoas estavam andando pela aldeia e ninguém havia dado alarme algum.
Amadores!” – sussurra Duna, – “Esses devem ser fáceis de pegar...” abaixa a cabeça e murmura para si mesmo: “Agradeço ao senhor, Deus das Batalhas, por mais esse presente!”
Toda a aldeia estava vazia, exceto por duas cabanas, uma de cada lado da estrada, separadas entre si por uma distância de dez passos. Em uma delas se ouvia risadas enquanto que, na porta da outra, um homem sentado num banquinho afiava tranquilamente uma grande faca. Planejaram rapidamente a ação. Talia entra correndo na aldeia, vindo pela estrada, fingindo pavor e falando em voz baixa com o homem sozinho:
Senhor, senhor, se esconde!”
Enquanto isso, Duna vem sorrateiramente pelo lado oposto, preparando um golpe, potencializado por seu soco-do-deserto, uma invenção de seu povo muito admirada entre os lutadores de taberna: quatro anéis grossos de ferro, soldados entre si, que causam um estrago bem maior do que a mão nua.
Que foi, moça, calma!” – o homem levanta intrigado. Talia se aproxima mais e fala mais baixo ainda:
Psiu!!! Fala nada não, senhor! Eles...”
A distração foi perfeita e Duna acerta um soco surdo no lado da cabeça do ladrão, que cai desacordado. Os homens da outra cabana nem percebem o acontecido. Talia e Duna então se dirigem para lá, onde Sagan já estava, montando guarda, escondido atrás de uma cabana vizinha. Viram então um segundo ladrão saindo, aparentemente bêbado, com um tridente de apanhar rãs. Ele mal teve tempo de saber o que acontecia, pois Sagan o apagou como se fosse um bezerro, batendo com a parte de trás do machado na cabeça do homem, que caiu imediatamente.
Uau!” – sussurrou Duna. “Que frieza! Muito bem, garoto!”
Mas então, com alguma finalidade indefinida, o lenhador começa a bater as botas com força no chão e a remexer na vegetação rasteira, provocando um barulho alto e entregando sua posição voluntariamente.
Pra quê isso?” – pergunta Duna à Talia, que não sabe responder... – “Menino burro... senhorita, amarre por favor o cara da faca que eu vou lá ajudar o garoto.”
Foi se aproximando devagar da outra cabana, de onde se ouve:
Tem alguma coisa lá fora! Estou ouvindo o barulho! Ei! Imbecil bêbado de uma figa! Tá morrendo aí? Eu disse que é uma péssima ideia caçar rãs bêbado!”
Duna ouve Sagan responder com um barulho estranho e desajeitado, uma mistura de arroto e soluço:
Blurp!”
E a voz da cabana, já quase do lado de fora, berra para os companheiros:
Ei cambada de palerma! Tem algum idiota aí que nem nem sabe imitar um slurp! Se preparem!” – e sai da casa com uma espada em punho, na direção exata de Sagan. A inteligência parece voltar magicamente à cabeça do rapaz, pois ele consegue acertar, de uma vez só, um golpe certeiro de machado no peito do homem, sobre a cota de malha. Sem sofrer nenhum arranhão, Sagan abate o segundo adversário real da sua vida.
Duna não tem tempo de ficar admirado com a nova demonstração de frieza, talento e coragem do rapaz, porque alguém começa a disparar uma besta em sua direção, de dentro da cabana. Duna procura abrigo atrás de uma árvore, mas não é necessário. O homem muda de alvo rapidamente quando percebe Sagan correndo depressa para dentro da cabana, girando o machado acima da cabeça e gritando:
É hoje que Sagan, o Maldito, manda vinte almas para o Senhor da Guerraaaaaaaaa!”
Dois dos dardos disparados pelo besteiro ficam presos no peitoral de couro de Sagan, mas o rapaz parece não sentir. Já dentro da cabana, Sagan chuta o homem, que não cai, e prepara um golpe de machado, que acaba por atingir somente o ar, pois o alvo já está no chão, atingido por uma pedrada de Duna na cabeça.
Não sabemos quem é o líder, garoto! Menos força nesse machado!”
O último componente do bando está tentando fugir por uma janela, mas fica paralisado quando vê que Sagan já o avistou e aproxima-se. Então rende-se. Duna o agarra e fala em tom apaziguador:
Deixo o Machado Maldito aqui longe de você... é só me dizer quem é o líder.”
O rapaz aponta o homem com cota de malha, agora todo ensanguentado pelo golpe de machado no peito.
Espero que você não o tenha matado, Sagan... mesmo assim... ótimo trabalho! Você é um guerreiro nato! Que frieza! Que coragem! Foi uma surpresa admirável saber que você luta tão bem!”
Sagan sorri, feliz com os elogios do amigo... e desmaia. Talia, que estava olhando a luta da porta da cabana, corre para ajudar o amigo. Retira os dardos do peitoral de couro e percebe que um deles, no ombro, foi um pouco mais fundo, mas a hemorragia já está cessando. Talia comprime a perfuração com uma mão e pede para Duna trazer algum tecido.
Linho, algodão ou lã, está bem? Paninho bonito não serve pra nada agora.” – Duna traz um pedaço de lã e Talia amarra firmemente o ferimento. – “Deve ter sido mais pela emoção do que pelo sangramento... ele já vai acordar, está respirando bem.”
Onde a senhorita aprendeu a tratar de ferimentos?”
Eu trabalho numa taberna... e sempre tem brigas, não é? Alguém precisa ajudar. Deixa eu ver esses caras... qual é o líder?”
Aquele ali, o do peito sangrando... merda, o garoto matou o cara.”
Ainda não...” – Talia avalia o ferimento. – “O corte foi profundo, mas parece que parou nos ossos... mas temos que voltar depressa, não sei cuidar disso, alguns ossos estão quebrados. Vamos estancar o sangramento e levá-lo na carroça... os panos amarramos nos cavalos. E você, senhor Duna? Está ferido?”
Não, não se preocupe, obrigada. E os outros homens, senhorita? Deixamos aqui?”
Talia olhou para ele desconfiada... parecia que o líder da equipe estava zombando dela... perguntar a opinião de uma mulher? Mas a expressão dele demonstrava dúvida e um pouco de desconcerto. "Bom", pensou Talia, "ele é o líder desse resgate e está pedindo a opinião de uma mulher para tomar uma decisão importante! Que homem mais... inédito!"
Você está falando sério? Quer mesmo saber a minha opinião?”
Claro, senhorita, eu sou de fora... não conheço os costumes daqui. A senhorita sabe deles muito mais do que eu. Por que eu não perguntaria, por acaso sou algum tolo?”
Talia percebeu que fazia todo o sentido, mas apenas para um homem inédito. Os outros, com quem costumava lidar, jamais imaginariam que uma mulher poderia acrescentar algo a um plano... então ela lembrou que ele também havia intervido a seu favor junto ao sr. Tremelassé na guilda e concluiu que Duna era mesmo diferente. Voltou, então, à questão do que fazer com os ladrões:
Bom, acho que podemos deixá-los amarrados aqui mesmo... o pessoal da vila deve estar escondido por perto, esperando eles irem embora. Pode ser que queiram vingança, não é? Deixa eu ver.”
Talia leva dois dedos à boca e solta um assobio alto e longo. Uma criança aparece na estrada, há uma certa distância e Duna mostra a ela um dos homens amarrado. A criança desaparece. Talia então vai até o homem atingido na cabeça:
Bom, esse aqui não tem mais conserto. Foi-se.” – ao que Duna reage, desconcertado:
Não! Não era pra matar! A senhorita está certa?”
Sim... não respira... ainda está quente, mas não levanta mais... repare nos olhos... esse morreu...” – ela diz e dá de ombros.
Pelo menos não é o líder, não é?” – mas Duna não parece tão tranquilo com a morte quanto Talia. – “Enfim... é uma alma para o Senhor das Batalhas, mesmo não tendo morrido pela espada!” – Duna se aproxima do homem e se ajoelha. – “Me daria licença senhorita Talia? Farei uma oração para esse homem... agora que não oferece perigo para ninguém, pode descansar.”
Alguns homens da aldeia já estavam retornando e Talia foi ao encontro deles. Decidiram que era melhor entregar os ladrões para um julgamento no castelo, pois não tinham machucado ninguém. O líder, contaram eles, chegou sozinho, em paz e pagou em moedas de cobre para todos saírem das casas por alguns dias, como um aluguel. Os aldeões não imaginaram que eram ladrões que se instalariam ali, gostaram de receber dinheiro vivo por algumas noites dormidas na floresta e aceitaram a proposta. Talia achou estranho essa forma inusitada de salteadores de estrada esvaziarem uma aldeia e guardou a informação para conversar com Duna depois. Ficou decidido que eles três levariam, então, os homens para serem julgados por roubo na cidade.
Os pescadores trouxeram então um dos cavalos que puxava a carroça da guilda, que foi encontrado por eles, solto na floresta. Ajudaram Duna a recuperar a carroça e a atrelá-lo, enquanto Talia dava uma olhada nos tecidos, separando os mais delicados. Escondidos entre os tecidos, ela encontrou quatro sacos pequenos de fortunas de prata, moeda oficial do império, mas rara de enconrar desse lado do continente. Em geral tudo era pago em moedas de cobre, prata ou ouro sem marcas, ou com a marca de algum nobre. Mas fortunas eram mais raras, pois eram cunhadas em Lago Maior, capital do império, que ficava do outro lado do continente, há várias semanas de jornada. "Estranho", pensou Talia, "Tremelassé não falou nada sobre moedas... muito menos fortunas de prata..." Escondeu os sacos com cuidado entre os tecidos ricos que amarrou em seu cavalo. "Mais uma coisa para contar para Duna mais tarde".
Sagan já estava acordado, ainda zonzo e sentindo o ombro machucado, então Duna solicitou que ele guiasse a carroça da guilda, que levava também o líder do bando, além dos panos mais simples. Os outros dois ladrões foram amarrados por Duna no cavalo de Sagan, de forma que não pudessem tentar fugir. Duna prendeu a rédea do cavalo à sua montaria, e o animal, que era dócil, os acompanhou tranquilamente. Imaginavam que agora, com a carroça levando o líder machucado, e o cavalo com a “carga criminosa", levariam em torno de seis horas para regressar, e viajariam um pouco à noite.
Puta merda, pessoal” – disse Sagan, já restabelecido. “Conheço bem esse caminho, passei várias vezes à noite, durante o dia, de madrugada... temos que rezar para não encontrar um slurp. Isso seria bem ruim, com esse cara sangrando, aqui...”

***
Parte 4: Ataque slurp!
Feras horríveis! Sangue! Pânico! E uma bela demonstração do bom uso de facas afiadas e úteis corpetes.

Slurp? O que é isso, rapaz?” – perguntou Duna. “Tem alguma coisa a ver com aquele barulhão que você fez lá na vila, não é? Que trapalhada!!! Se você não fosse uma surpresa de destreza e força, teria sido bem mais difícil nossa tarefa... “– e deu uma boa risada.
Você ri, Duna, porque não conhece os slurps.” – dava pra sentir o medo nas palavras do lenhador. “São monstruosos, gigantescos, seguem o cheiro de sangue e atacam em bando... Depois eles sugam as entranhas da gente, assim:” – imitou novamente o soluço sugante dos animais: "slurp, slurp, slurp... é um horror...”
Ah sim!” – Duna riu mais ainda – “E você quis intimidar esses vilões fazendo o barulho do bicho, foi isso?”
É, mas na hora eu me atrapalhei todo!”
Eu percebi! Senhorita Talia, está ouvindo? Ele queria imitar o bicho pra assustar os caras!”
É... talvez funcionasse... slurps são perigosos mesmo...” – responde ela, pensando em outras coisas, coisas redondas, valiosas, que estavam levando entre os tecidos. Mas decide entrar na conversa, que estava divertida: “Mas eles nunca atacam vilas, Sagan, você sabe... foi uma péssima ideia!”
Sim, foi, mas eu não consegui pensar em mais nada... enfim... funcionou! Eu peguei eles!”
Pegou demais,” – lembra Duna. “O líder ainda está morre não morre... veja...”
É esse sangue todo que me dá medo... vai chamar slurp, estou dizendo.” – Sagan não se aquieta. “Esses bichos são traiçoeiros. Temos que ficar atentos.”
Mas é tão perigoso assim?” – Duna fica curioso. “Vocês não caçam esses animais? Existem muitos?”
É difícil entrar no pântano para pegá-los,” – explica Talia. “eles se enterram bem, são da cor da lama, não se consegue ver a não que chegue muito perto... além disso, se você ficar preso no pântano, adeus! Mas não vejo perigo não, Duna... estamos em um grupo grande e eles tem medo. Só atacam pessoas sozinhas, velhos, crianças... não vão atacar tanta gente junta. Ainda mais durante o dia. Não vimos nenhum até agora, estamos fora de perigo.”
Você que pensa, senhora! Se eles sentirem o cheiro de sangue, ficam doidos! Vamos o mais rápido possível! Estamos indo muito devagar!”
Mas aumentar a velocidade da carroça mataria o líder, e não teríamos o restante do dinheiro.” – lembra Duna.
Talvez não precisemos nos preocupar tanto com o pagamento...” – diz Talia, retirando um dos sacos e jogando para Duna – “Olha isso! Estava entre os panos.” – Duna abre o saco e fica admirado com o conteúdo:
Fortunas!!! Como esses bobocas conseguiram tanto dinheiro?” – Duna fica pensativo. “Porque ficar numa vila de pescadores?”
Sim, tem alguma coisa por trás disso...” – Talia também estava matutando a coisa toda e era bom compartilhar os pensamentos com Duna. Continuou: “Os pescadores me falaram que eles pagaram aluguel pela vila, que o líder chegou sozinho e sem confusão! Esses dois aí devem saber de alguma coisa... podemos parar e acordá-los para perguntar.”
Não! Não vamos parar! Os slurps!” – um Sagan mais do que assustado horrorizou-se com a ideia.
Calma, Sagan... Vamos parar num lugar alto com boa visibilidade, se você prefere. Que coisa estranha, rapaz, você bate em homens como se fossem de brinquedo e tem medo de um bicho?”
Você não conhece esses bichos, Duna... são o demônio. E quando sentem o sangue, ficam malucos. São o demônio. O demônio.”
Chegaram, finalmente, a um local que oferecia uma boa visão dos arredores para parar. Poderiam ver qualquer viajante ou animal que se aproximasse, a uma distância razoável. Duna desmontou e com alguns tapas leves, acordou primeiro o bandido que estava afiando a faca, que parecia mais velho e experiente. Desamarrou a boca do homem, mas ele tinha pouco a dizer. Só sabia que haviam sido pagos pelo serviço com as moedas, mas não sabiam quem havia pago, ou por qual motivo. Acordaram o outro, que não acrescentou grande coisa. Eles não conheciam o líder, tinham negociado tudo numa taberna barata. Se juntaram somente na tarde do dia anterior. O mais velho, o da faca, olhou bem para Talia e disse:
Ei, lindeza, eu acho que estou reconhecendo você! Essas roupas de roça disfarçam, mas você é aquela dançarina, não é? Da Taberna dos Bravos? Hummm... você rebola bem como uma... humpf! Grumpf!” – Duna colocou a mordaça novamente do homem e usou sua “técnica antiga de silenciamento” nele, que alguns poderiam achar que era apenas um soco no queixo bem aplicado, e o homem desmaiou de novo.
É vergonhoso ouvir um homem usando esse palavreado com as mulheres... aqui no Norte são todos assim, desrespeitosos, ofensivos... me desculpe pelo constrangimento que este homem lhe causou, senhorita Talia.”
Talia nem conseguiu responder, estava sem palavras. Somente seu pai e seu irmão a haviam defendido assim. Os outros homens, mesmo os de melhor condição social, achavam normal as mulheres serem tratadas daquela forma. Principalmente as dançarinas. Ainda mais em tabernas. Duna era um homem inédito. Definitivamente. Mas logo voltou a se concentrar na conversa, pois Duna já tinha dado o assunto como encerrado e tinha voltado às conjecturas sobre a estranheza desse roubo de carga:
Pagar alguém para roubar panos? Alugar uma vila para esconder bandidos? Isso tem um cheiro errado, bem errado... tem mais aí.” – Duna ia amarrando novamente a boca do segundo ladrão, que estava em silêncio, talvez por ainda lembrar da carnificina provocada pelo “Machado Maldito”. Então Sagan gritou:
Ouvi alguma coisa! Slurps!”
Não, Sagan, imagina...” – Talia tentou acalmar o rapaz. “Slurps não atacam durante o dia...”
Mas os cavalos começaram a se agitar, difíceis de controlar. Duna era o único desmontado e correu para acalmar seu animal, largando a rédea do cavalo onte estavam os ladrões. A montaria escoiceou, pinoteou, fez tanto que conseguiu se livrar de uma das cargas, que caiu gritando. O outro, desmaiado, continuou preso enquanto o cavalo fugia em disparada.
Sluuuurp! Socorro!” – Sagan começou a gritar.
O homem caído e amarrado começou a gritar também:
Me soltem! Me soltem! Não me deixem aqui!”
Começaram a ouvir um barulho alto e perceberam a vegetação se movendo em várias partes.
Slurp, slurp! Slurp, slurp!”
Parecia vir de todos os lados. Os cavalos estavam assustados, mas Talia e Duna ainda conseguiam manter os suas montarias quietas. Duna gritou:
Senhorita Talia! Fuja!”
Imagine só! Eu adoro uma boa caçada!” – Ela tira duas facas da estrutura do corpete e mostra aos homens. “Estou pronta! Que venham!” – ela se volta para o rapaz mais novo e grita: “Sagan! Desatrele o cavalo da carroça e suba nele! Matamos os bichos e vamos embora, essa carroça que fique aí!”
Mas antes pegue o líder, Sagan!” – o rapaz parece petrificado. – “Sagan? Seu machado, rapaz! Acorde!” – Duna, ainda desmontado, se aproxima da carroça e dá um tapa em Sagan.
Nãããão... consigo... slurp...”
Duna desatrela o cavalo e puxa Sagan. O faz subir na montaria.
Vá embora, se está com tanto medo! Vai!” – Sagan some em disparada, sem precisar guiar o cavalo, que também está em pânico.
Agora as criaturas estavam se aproximando e já podiam vê-las. Eram várias e vinham de todos os lados. Duna pára para olhar. São realmente grandes e assustadoras, do tamanho de um homem adulto. Lembram sanguessugas, rastejantes, com grandes bocas nojentas... Duas delas caem quando Talia arremessa suas facas exatamente dentro das bocarras.
São fáceis de matar, Duna, se você souber onde acertar!”
Talia abate mais uma das criaturas e fere outra, que solta um grito agonizante e diminui o ritmo, mas não pára de avançar na direção do rapaz amarrado. Uma das coisas, que vem atrás dela, morde o ferimento da companheira de pântano e a puxa com força, montando no animal ferido com o que parece um salto e sugando-o fazendo um ruído mais alto ainda: “Slurp, slurp, slurp”. “É, realmente é horrível.”, pensa Duna, imaginando como seria com uma pessoa. “Assusta um pouquinho mesmo.”
Me soltem!!! Pelo amor dos deuses! Pela minha vida! Eu faço tudo o que vocês quiserem! Me soltem!”
Duna está tentando tirar o líder da carroça e colocá-lo em seu cavalo, mas é complicado fazer isso enquanto a montaria tenta pinotear e fugir, apavorada com o ataque dos monstros.
Vou te soltar, e você vai me ajudar com isso aqui!” – Duna só vê essa solução, ou então abandonar o líder e o homem amarrado ali... mas deixar alguém amarrado para ser comido por aquelas coisas era uma ideia covarde demais pra ele. Vencer em batalha era uma coisa, matar covardemente, e por inação, completamente diferente. Era pecado.
E é bom ajudar, que eu tenho uma faca preparada pra você, cachorro! Juro que acerto na perna pra você não conseguir correr dos bichos!” – grita Talia enquanto acerta mais dois slurps, um na boca, matando a fera, mas outro apenas de raspão.
Eu ajudo! Eu juro! Qualquer coisa! Socorro!”
Duna solta o ladrão, que o ajuda a colocar o líder no cavalo, na sela de Duna, que senta atrás, sobre os panos e incita o cavalo a partir:
Vamos sair daqui!”
“ Pronto!” – Talia acerta mais um bicho próximo e deixa o cavalo correr livre pela estrada. O ladrão ainda tenta montar em sua garupa, mas Talia ameaça atirar uma faca. – Cai fora, patife, use as pernas!

***
Parte 5: Intriga internacional?
Onde acompanhamos um final de jornada sem acidentes e os planos dos aventureiros para descobrir as reais pretenções dos duvidosos assaltantes de cargas. Em que nossa heroína adormece pensando em alguém mas acaba sonhando com outra pessoa...

O cavalo de Duna, com dupla carga, não consegue correr tanto quanto o de Talia, mas está apavorado e não fica muito atrás. Logo eles encontram Sagan, ainda tremendo, mas falando:
Vocês conseguiram! Me perdoem! Eu não sei o que deu em mim! Eu.. eu...”
Sim, sim... vamos esquecer isso agora.” - diz Talia. “Você está machucado também, esquece... os bichos já ficaram pra trás. Senhor Duna! Deixe eu ver esse cara aí!” – Talia desce do cavalo e avalia o líder com atenção. “Nossa, como é forte! Ainda não morreu, mesmo com essa cavalgada!”
Senhorita Talia, olhando agora...” – Duna parece intrigado. “Essa capa, essa cota de malha que o homem usa. Não são de cavalheiro vassiliano?”
Quê? Um cavalheiro vassiliano roubando tecidos? Subornando pescadores de vila? Não pode ser...” – a moça se aproxima e examina a vestimenta do homem desmaiado – “A capa é mesmo da Vassília... olhe o brasão. E o cara é forte pra caramba, incrível como ainda resiste... não me admiraria se ele fosse cavalheiro arregimentado não... mas roubar tecidos? E aqueles sacos de fortunas?”
Eu sempre ouvi falar da disciplina e honra da ordem vassiliana”, – completa Sagan. “Muito estranho mesmo...”
Acho que o melhor a fazer é entregá-lo à embaixada, não ao Tremelassé.” – diz Talia. – “Ou pelo menos investigar por lá quem é esse cara. Conheço pessoalmente o embaixador da Vassília, Beraldo Connefort, é o melhor freguês da taberna. Podemos falar com ele, certamente ele me receberia.”
Senhorita, me desculpe, mas se tem dedo da Vassília nesse ataque, a última pessoa com quem temos que falar é com o embaixador de lá, não acha?” – Duna retruca. – “Vamos continuar com o plano e levar os panos e o líder para a Agulha e Linha.”
Ah, mas eu não acredito que um homem tão educado e honrado quanto o embaixador Connefort iria se meter em sujeiras... ele é inteligente e tem uma ótima posição na cidade!”
Senhorita... essa conversa me espanta... não importa se esse embaixador Burraldo Comefortes...”
Beraldo, senhor Duna. Be-ral-do Con-ne-fort” – Talia imaginou que o engano de Duna fosse devido à dificuldade de pronúncia.
Ah, esses nomes do norte! Como podem não significar nada? Burraldo, Beraldo que seja! Não importa se esse senhor é ou não da fina nata da sociedade... vamos levar tudo para a Agulha e Linha e deixar que o Tremelico lá...”
Tre-me-lá-ssê!”
Como eu dizia... (por favor, senhorita, não me interrompa mais com esses nomes nortistas idiotas) que o Tremelico resolva esse negócio.” – mas então Duna parece ter lembrado de algo e pondera: – “Mas então nunca saberemos os detalhes... essa história está mal contada e acho que podemos tirar muito mais daí do que quatro sacos de fortunas de prata... mas como...”
E se tirássemos as roupas dele?” – sugere Sagan. Então teremos uma prova para o embaixador e pegamos a recompensa pelo líder com a guilda!”
Sagan!” – Duna responde, feliz com a solução do amigo – “Você é uma surpresa constante! Como pode ser tão inconstante essa sua inteligência, rapaz? É isso mesmo, vamos ter as duas coisas! Podemos averiguar o embaixador, que desconfio estar metido nisso, sem deixar nosso empregador insatisfeito!”
Então vamos à embaixada, falar com o embaixador Connefort?”– Talia parece contente com a possibilidade – “Eu gostaria muito de estar lá e falar com ele!”
Melhor mesmo, assim a senhorita pode ver se esse Burraldo é tão honrado quanto imagina, as pessoas mostram a verdadeira face quando são apanhadas em falcatruas.”
Você é que vai ver quem ele é, senhor Duna, o Desconfiado! Deve haver uma boa explicação para tudo isso! O embaixador Connefort jamais se meteria em sujeiradas traiçoeiras! Você vai ver!”
Então Talia fica quieta, lembrando do embaixador. "Tão bonito! Mas claro que não vou falar da beleza dele pra esse bruto do Duna, ele vai rir de mim." Ela olha para suas roupas e sente o próprio cheiro. "Pareço uma aventureira maluca. E com esse cheiro de suor e cavalo... melhor não aparecer na frente de Beraldo Connefort assim... o que ele vai pensar? Pensando bem, é melhor ele lembrar de mim como sócia de taberna, mulher de negócios.. e não como caçadora de recompensas... Afinal, com tanta moça enxameando ao redor dele buscando sua riqueza, meu trunfo é ter minha própria vida...h e fala para os companheiros:
Acho que não vou com vocês à embaixada não... amanhã é dia de apresentação e vou precisar ensaiar à tarde. Vou tentar dormir cedo. Depois vocês me contam o que aconteceu.”
Está bem, a senhorita é quem sabe. Melhor mesmo não interferir na nossa conversa, defendendo o patife.”
Ha, ha! Agora ele é um patife? Você nem o conhece, Duna, ele é um bom homem, estou dizendo.”
Seja quem for! Chega desse assunto!” – Talia tinha razão, ele nem conhecia o homem, então por que já ir chamando o homem de patife? A única coisa que Duna sabia dele era o que Talia estava contando, com tanta admiração. E ele não duvidava da percepção dela, mas não gostou do homem, ainda assim. – “Ainda temos uma hora de caminhada e não quero falar de Burraldo nenhum!” – completa Duna. E, apaziguador, muda de assunto: “A senhorita também é uma surpresa, assim como nosso amigo Machado Maldito aqui! Sabe lidar com ferimentos, mas é muito melhor com as facas! Quantas esconde nesse vestido?
Trouxe oito comigo... já estava ficando sem, na verdade... não dá pra trazer mais sem incomodar.”
E onde aprendeu a usá-las assim?”
Ah... é uma história longa...”
Temos um longo caminho pela frente!”
Aprendi com meus pais, viajávamos com um espetáculo, eles atiravam facas e coisas assim...” – Talia se cala, como se houvesse só isso para contar.
Sim! Interessante! E eles, continuam viajando, agora? Será que não os conheci nessas estrada? Passei por muitos artistas, atiradores de facas inclusive!”
Não, Duna, não... eles já morreram...”
Oh, sinto muito, senhorita, não queria trazer lembranças tristes para você...”
Tudo bem. Faz tempo. Eu nem era mais tão menina assim, já sabia manusear bem as facas. Mas não gosto de falar sobre isso não.”
Está bem, não vou mais insistir... me desculpe, novamente.”
Tudo bem, não tem problema...”
Talia se calou, um pouco triste. Sagan começou a narrar de várias formas diferentes o ataque, empolgado e Duna dava dicas e ensinava táticas e estratégias para o rapaz. Foi um final de jornada divertido para os três, Talia logo se envolveu na conversa. Encontraram o senhor Tremelassé ainda na guilda, aguardando.
Finalmente! Que demora!!! Será descontado do pagamento!”
Ei, ei, senhor Tremelico! Não comece” – Duna falou rispidamente para o contratante. – 'Não foi tão fácil e o senhor conhece a distância! Já sabia que chegaríamos nesse horário!”
Está bem, está bem! Meus panos... onde está a carroça?”
Nessa hora deve estar sendo vigiada por um bando de slurps, acredito eu. Ela está na estrada, onde deixamos quando os bichos nos atacaram. O senhor mande buscar amanhã.”
Meus tecidos! Meus ricos tecidos! Cheios de sangue e gosma... ah, não...”
Calma, senhor Tremelassé!” – diz Talia – “Separamos os melhores, estão aqui, sem arranhões, poeira ou gosma de slurp.” – Sagan entrega os panos e ela continua. – “Também trouxemos o líder do bando para o senhor, e estamos devolvendo três cavalos... infelizmente, um deles fugiu durante o ataque, e o outro cavalo da carroça não foi encontrado.”
Tremelassé investiga os panos, que eram realmente lindos. Sedas coloridas, linho entremeado com fios de ouro e prata, algodão de trama fina enfeitadocom desenhos incríveis, rendas intrincadas. Um deles agradou especialmente Talia, bordado com rosas vermelhas e folhas de ouro.
Esse pano é mesmo magnífico, senhor Tremelassé... quanto custa?”
A senhorita tem mesmo bom gosto... e ficaria magnífica dançando com ele! Podemos negociar com uma daquelas garrafas de vinho especiais, hein? Pode levar! Vou gostar de vê-la nele! Mas me deixe embalá-lo que a senhorita está imunda! Minha nossa, uma senhorita tão bonita em estado tão lamentável! Que tempos são esses! Pelos deuses!”
Do lado de fora da guilda, decidem ir à embaixada somente no dia seguinte, pelo adiantado da hora. Talia aproveita pra convidar Duna para se hospedar na Taberna dos Bravos. Sagan se despede:
Bom, vou para casa! O dia de hoje foi incrível, senhorita Talia, vou ficar devendo aquela cerveja! Outra hora eu pago!”
Mas é muito longe, Sagan?”
Uma hora e meia de caminhada...”
Melhor você não caminhar isso tudo com esse ombro machucado. Fique na taberna. Eu desconto a minha parte, mas o meu sócio é duro nos negócios... a parte dele vocês vão ter que pagar. Infelizmente, é a maior parte...”
Sem problemas, senhorita, nós temos as fortunas, hein? – emenda Duna, feliz pelo chefe da guilda nem chegar a mencioná-las. – E o Tremelico nem sabia delas, hein? Um ótimo espólio!”
É, tinha até me esquecido! Vamos dividi-las na taberna! Em três partes iguais, não é?”
Sagan respondeu:
Eu não servi de nada contra os slurps... poderíamos ter ficado com a carroça se eu não fosse tão desajeitado. Vocês podem ficar com uma parte maior.”
Rapaz, não sei o que acontece com você, é desconcertante.” – fala Duna intrigado: – “Num momento, é o herói, o Machado Maldito, atacando homens como se fossem galinhas. Depois, congela ao ver um animal perfeitamente combatível! Pois a senhorita Talia não matou meia dúzia deles? Mas não seríamos justos se ficássemos com a maior parte... você pegou dois homens sem lhes dar chance de defesa! Foi incrível!” – o rapaz sorriu novamente, mas ainda estava contrariado com a própria covardia. – “Da próxima vez, eu ataco essas coisas, eu juro!”
Na taberna, comeram juntos, tomaram as cervejas pagas por Sagan e conversaram por mais algum tempo, até o sono começar a atrapalhar a conversa. Já em seu quarto, Talia tomou um banho demorado e quando finalmente foi deitar, já era madrugada alta. Acostumada a dormir tarde, aproveitou os últimos momentos de silêncio para pensar sobre o dia.
Há quanto tempo eu não me divertia assim! Tenho que sair mais com esses dois! Pois quem diria que esse menino seria tão ágil? Tão bom na batalha? E o tal do Duna, todo educado e decidido, vindo pedir a minha opinião, reconhecendo a boca suja daquele sujeito... que inédito! Mas essa história do cavaleiro vassiliano... o que o Beraldo vai dizer? Eu queria ser uma pulguinha... mas não posso ir até lá e me apresentar como aventureira sob contrato, imagina só! Melhor que ele lembre de mim dançando, mas não apenas uma ótima dançarina de taberna, também uma comerciante independente! Ah, o Beraldo, tão bonito, aqueles olhos verdes... o sorriso...”
Fechou os olhos pensando no embaixador. Mas quando finalmente dormiu, os olhos verdes não estavam em seu sonho... Talia matava dúzias e dúzias de slurps e outras feras, leões, lobos, águias gigantes, com suas facas certeiras, enquanto Sagan se encolhia apavorado atrás dela e Duna aplaudia, divertido e orgulhoso. Era um sonho bom, um dos melhores que já tivera. Dormiu muito bem.

***
Parte 6: O viajante e o embaixador
Em que nossa heroína observa com mais cuidado um certo embaixador, sob a perspectiva apurada de um certo viajante...

Quando Talia acordou, já era hora do almoço. Não encontrou nenhum dos seus novos amigos na taberna. Almoçou com Eli, a segunda bailarina e coreógrafa do grupo, que a chamou para criarem uma peça especial, em homenagem a alguns burgueses vassilianos que estavam de passagem pela cidade. Talia também foi à melhor costureira da cidade, mostrando o pano de rosas e ouro e encomendando um vestido novo. E nada dos dois quando abriram as portas para os trabalhos da noite.
O embaixador Belardo chegou com a comitiva de vassilianos e ela os recebeu, como sempre. Como de costume, o embaixador foi gentil com ela, e se demonstrou novamente interessado nas coisas que ela fazia:
Senhorita Talia, está magnífica essa noite... alguma novidade?”
Não senhor, nada que interessaria...” – Talia achava que a aventura do dia anterior era novidade mais do que suficiente, mas claro que ela não iria falar de slurps para o embaixador... ainda mais porque Duna provavelmente já teria conversado com ele a essa altura.
Ah, sim, um novo vestido talvez? Um perfume?”
É... estou fazendo um novo vestido com um lindo tecido do senhor Tremelassé... com desenho de rosas e folhas de ouro.”
Parece bonito... e a dança de hoje?”
Planejamos um número especial para o senhor e seus convidados! Espero que gostem! Aliás, está na hora, com licença...”
O espetáculo começou. Na metade da dança, Talia desistiu de buscar os olhares do embaixador, que parecia não reparar nela mais do que nas outras dançarinas. Foi quando percebeu um jovem diferente na platéia. Lembrava um pouco Duna, mas estava com o cabelo cortado, barbeado e usava um rico casaco de peles. Aquela personagem a interessou muito, e depois da pirueta, do salto, da ponta e da volta, chamou outra dançarina:
Você conheceu meu amigo ontem no jantar, o Duna, não é Lina?” – pirueta, salto, ponta, volta.
Aquele aventureiro?” – pirueta, ponta, ponta, volta e meia.
É! Não é ele ali, de casaco de peles?” – ponta, volta, pirueta, volta.
Não... imagina... aquele ali deve ser algum nobre estrangeiro...”
A peça termina meia hora depois, e Talia troca-se rapidamente para conhecer o estranho antes dele ir embora. A novidade a tinha feito esquecer o embaixador por um tempo. Duna disse-lhe ter muitos irmãos, e este homem pode ser um deles...Talia chama o garçom:
Ei, Jonir! É você que está atendendo aquele senhor com as peles?”
Sim... estranho ele... Pediu somente uma cerveja, e agora vou levar um filé para ele. Você o conhece?”
Não sei... mas ele é muito parecido com um amigo meu...”
Quer que eu mande algum recado?”
Pergunte a ele se ele conhece o Vagante das Dunas...”
Mas esse é o nome dele, Talia... Ele é esse tal de Vagante...”
Sério?” – Talia dá risada. – “O Duna, todo empolado, organizado, galante!”
Então você o conhece?”
É! Conheço! É meu amigo, conheci ontem.” – "...mas parece que faz bem mais tempo", ela emendou em pensamento e dirigiu-se à mesa de Duna, pelas costas do rapaz, ainda intrigada: "Onde ele arrumou esse casaco? Parece tão caro! Será que gastou todas as fortunas que achamos?"
Entretanto, um funcionário da embaixada interrompe seus pensmentos:
O embaixador Beraldo a convida para jantar com ele, senhorita Talia.”
Claro! Eu...” – era tudo o que ela queria, jantar com o embaixador! Tão bonito... mas a curiosidade sobre o que Duna e Sagan haviam descoberto na embaixada, somada a essa nova figura que o amigo estava apresentando, a puxava para outro lado. – “Diga que eu já vou, sim? É rápido! O tempo dele tomar uma taça de vinho!”
Imediatamente, senhorita.”
Talia chegou por trás de Duna e o surpreendeu:
Esperando a namorada, senhor Vagante das Dunas?”
Eu... – Duna se vira e então a reconhece. E a cumprimenta com um sorriso brincalhão. – “Talia! Olá! É, de certa forma, estou esperando a namorada, sim...”
É mesmo? Posso me sentar enquanto ela não chega?”
Claro!” – Talia mediu a mesa do embaixador e sentou de forma que ficasse fora do campo de visão dele, escondida pelas outras pessoas. Voltou a falar com o amigo: “Então... gostou da dança?”
Foi muito estimulante! A senhorita dança tão lindamente quanto atira facas, devo dizer! Estou encantado!”
Obrigada! E você hein? Todo elegante! Essa pele!”
É de um leopardo do deserto que eu cacei na minha terra! Minha mãe ficou muito orgulhosa e bordou com esse fios de ouro! É um objeto de estimação que trago com muito orgulho!”
Nossa, que história!” – Talia se sentiu um pouco tola: "como eu não pensei nisso? claro que deveria ser alguma coisa assim... rude... mas emocionante, também!" – “E está intacta! Mas como foi lá na embaixada hoje? Você foi até lá vestido assim?” – ela tinha que tirar todas as dúvidas logo, antes de jantar com o embaixador. Olhou na direção dele. Ele não parecia ter visto que ela conversava com Duna.
Não, fui vestido com roupas de trabalho.” – Talia relaxou “Beraldo nunca vai ligar uma pessoa à outra”. – “Bom, o homem desconversou um bocado... disse que o rapaz que pegamos havia se rebelado e estava sendo procurado. Olhe!” – mostrou a ela um anúncio de "procurado" com o desenho do líder, oferecendo uma boa recompensa. – “Acho que o Tremilico reconheceu o desertor, por isso queria ele inteiro. Maldito costureiro! Nos passou a perna!”
Então, não falei? Tinha uma boa explicação pra isso tudo...”
Ah, não estou satisfeito, não, ainda me parece muito estranho.”
Relaxa, Duna... deve ser isso mesmo. O cara desertou, foi roubar a carga e pronto.”
Sem tirar a farda? Pagando aluguel pela vila? E os sacos de moedas? Talia... você parece mais inteligente do que isso.”
Ah, homem não pensa em roupas, Duna!” – ela já estava impaciente e começou a levantar. – “Então está bem! Vou deixar você esperar sua namorada! Conversamos amanhã!”
Talia!” – Duna levantou com ela. Era a primeira vez que ele não a chamava de “senhorita”. E foi intencional, porque ela sabia que ele era o tipo de homem que pediria permissão. E ele sabia que chamaria a atenção dela. E a forma direta como ele a olhava agora, nos olhos... – “Eu gostaria mesmo de contar a você o que me incomoda nesse embaixador!”
Tudo aquilo deixou Talia um pouco desconcertada e dividida. Não sentou, mas parou para ouvir.
Sente-se, por favor...”
Está bem. Mas fale rápido, que eu tenho um convite para jantar...”
Com ele não é? Ah, Talia, esse cara fede! Não gostei nada da forma como ele conversou conosco hoje! Está tudo perfeito demais nessa história, não estou gostando... eu ainda não sei o que é, mas não pode ser só isso! Veja bem, o rapaz estava todo paramentado... se ele tivesse desertado, tiraria o uniforme! Porque ele correria o risco de ser pego se estava sendo procurado?”
É, é estranho mesmo...” – Talia começou a ficar interessada na conversa de Duna.
Eu acho que foi tudo armado, sabe? Esse roubo, o lugar onde eles se esconderam, esses comparsas praticamente inúteis, nenhum vigia de guarda na vila... foi fácil demais nosso ataque. É como se eles quisessem que a gente os pegasse!” – Talia já estava enredada nos argumentos do amigo... intrigas sempre eram muito sedutoras...
Mas por quê?”
Pra causar estremecimentos entre Vassília e Valoton!”
Mas Berlando... mas o embaixador estava procurando o cara! Ele não pode estar envolvido... o rapaz pode ter desertado a mando de alguém, e essa mesma pessoa que pagou as fortunas para eles...”
É, pode ser, mas não confio nesse embaixador. Ele não olha nos olhos da gente, ele não fala com convicção.” – e Duna imitou a entonação entediada do embaixador: – "Senhores, vejo que estão com o uniforme do desertor... muito bem! Onde está o homem? Ah, virou um bandido de estradas, atacante de cargas? Que original, não é? Bem, pelas roupas não temos recompensa, mas se os senhores conseguirem o patife, bla bla bla". Não confio em pessoas sem sangue nas veias e na voz.”
Talia estava rindo, a imitação era perfeita. Não tinha reparado como a conversa do embaixador era educada, mas sem emoção. O convite dele parecia menos romântico, agora. Pareceu um pouco falso e comercial demais também.
É, você tem razão, Duna, ele é meio apático mesmo, polido demais...”
Duvido que já tenha matado um slurp, como você faz.”
Será que ele não sabe lutar? Bom, eu nunca o vi metido em brigas... sempre olhando tudo à distância...”
Porque não tem sangue, não tem energia... como você tem.” – Talia enrubesceu, Duna estava olhando diretamente nos olhos dela, e continuou, sem desviar o olhar: – “Esses tipos burgueses, nobres, como esse embaixador aí, só possuem qualidades estéticas...”
Com assim, estéticas?”
É como um manto de seda. É bonito, fino, brilhante. Mas se você quiser usar para te proteger do frio ou da chuva, não serve, e até estraga. Nem para fazer um curativo, como você bem sabe. Não é como um bom casaco de lã ou couro. Podem ser rústicos, mas estão sempre lá pra te proteger você quando precisa...”
Talia ficou por um tempo sem fala, mas acabou retrucando:
Mas e quem disse que eu preciso de proteção? Imagina só!”
Ah é? Então vai lá, janta com ele. E se prepara para protegê-lo, porque ele parece precisar...” – Talia pensou e olhou para a outra mesa. O jantar já estava servido e o embaixador conversava com a comitiva, sem parecer se importar pela falta dela.
Ah, na verdade, já perdi a vontade de jantar com ele... só me escuta a respeito de tecidos e flores e danças...”
Deve achar que as mulheres não tem outros interesses...”
E você pensa diferente?”
Meu pai tem uma família grande, várias esposas. Tenho também muitas irmãs, além de irmãos... no deserto a vida é difícil, precisamos de todos os braços, sejam de homens ou mulheres. Todos precisam ser fortes e entender de várias coisas para que a família consiga sobreviver. Minha mãe também tratava de feridos, e eu a ajudava quando menino, até que meu pai me achou grande o suficiente para treinar para a guerra...” – e Talia se deixou ficar, ouvindo as histórias de Duna sobre o deserto, sua família, a caçada ao leopardo, quando ele era pouco mais do que um menino... e na terceira ou quarta cerveja percebeu que não havia namorada nenhuma, Duna estava ali por causa dela. E ela também resolveu ficar ali... por causa dele.

F I M

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