18 de junho de 2012

Cultura em Pato Branco

Alguns candidatos (ou pré-candidatos, sou meio boba nesses imbróglios eleitorais e eleitoreiros) estão conversando com o pessoal de patópolis sobre temas eleitorais e eleitoreiros. Tudo me interessa e acompanho alguma coisa, mas o que me puxa e faz funcionar essas engrenagens preguiçosas da minha cabeça é a arte. Então vou meter meu bedelho, já que convidaram, não é não?

Primeiro, um diagnóstico rápido da situação da cidade. Tem cultura, tem arte em Pato Branco? Quem já estudou o assunto vai dizer que sim, que tem muita. Quem acha que não tem cultura nem arte em Pato Branco tem que estudar mais. Se tiver o interesse, claro, quem sou pra mandar alguém ler.

Só pra constar. Não sou especialista. Não fiz um levantamento exaustivo. Algumas coisas estou dizendo por ouvir dizer e suposição. Mas precisamos partir de algum lugar e aqui está.

1.1 As tradições gaúchas, a religiosidade, a classe média trabalhadora e a fotografia.

Sim, CTG é arte, gente! Dançar, cantar, se fantasiar, declamar poesia, acampar, doma, rodeio, chimarrão. É tudo arte. Dizem que o início dos CTGs foi invenção de universitário com invejinha do samba do Rio de Janeiro, mas não importa, agora é tudo feito com o coração. E pra mim é isso o que mais tem relevância: ser uma atividade apropriada pelas pessoas, feita de coração e com todo o empenho do corpo e da mente. Mesmo os odiadores mais radicais das gauchices não podem negar isso. É arte, é cultura. E eu tenho orgulho em ver pato-branquenses vencendo concursos Brasil afora. Só não estou num CTG dançando, cantando, declamando e me divertindo porque não é a minha praia. Sou punk roquer, sou feminista, a tradição manda recato e eu mando o recato... enfim.

Eu vejo um bocado de arte nos rituais religiosos. Muito do nosso povo usa a religião como expressão também. E eu acredito que a fuga em massa dos brasileiros e pato-branquenses da igreja católica para as evangélicas representa muito mais do que redistribuição de dízimos. É a perda da identidade entre o praticante e a religião. A igreja deixou de ser um local de catarse, de sonho, de prazer. Pessoal está um pouco cansado dessa missa sempre igual, padres com esse obrigatório sotaque de lugar nenhum e as músicas arrastadas. Legal mesmo é ver exorcismo ao vivo e em cores, falar em línguas e passar debaixo do pó de ouro pra ficar rico. Ritual religioso também tem arte e supre a falta dela nas pessoas mais espiritualizadas.

E né, nós, a classe média trabalhadora herdeira de colonos europeus que suavam, de sol a sol, na capina, na enxada. Herdamos um amor pelo trabalho duro que faz com que vejamos a arte, se não for lucrativa, como bobagem. Quer ser músico? Vai tocar acordeão nos bailes pra ganhar dinheiro. Quer costurar? Vai fazer vestido de formatura. Quer escrever? Jornalista, radialista. Quer cantar? CTG, Festivais da canção. Você tem que ganhar dinheiro e rápido, meu filho. Nós não trabalhamos a vida toda para criar vagabundo. Talvez por isso nossos artistas mais famosos e mais reconhecidos dentro da cidade sejam os fotógrafos. Porque fotografia sustenta a família, além de ser bonita.

Muito orgulho aqui também. Não conheço todos os nossos fotógrafos então não vou citar nenhum. Mas nossas fotografias são lindas, não apenas pela paisagem bonita. Porque é preciso ver para clicar.

Então arte e cultura nós temos. De monte. Você pode não gostar, mas não pode negar que é arte, que é cultura. Então Pato Branco tem cultura. E arte. Qual é o problema então? O público? Acho que não...

1.2 O público

As 15 locadoras de DVDs, o uso intensivo da internet (quanta gente brigando com o vizinho por causa do compartilhamento de banda larga...), os estúdios de tatuagem cheios, as boates cheias, os shows cheios, a Paladium cheia, as igrejas católicas evangélicas africanas espíritas cheias... as lojas de roupas e calçados cheias... as decoradoras vendendo estantes e sofás de quatro dígitos, um novo motel a cada ano... os leilões do Rotary faturando... o público está aí, está morrendo pra ver cultura, pra ver arte, pra fazer também alguma coisa acontecer. A demanda existe, com certeza.

E não é falta de conhecimento não... Nós, a classe média trabalhadora herdeira de colonos europeus estamos cansados de saber o que é arte, o que é bonito, o que é cult, o que são as Belas Artes, quem são os grandes artistas da civilização ocidental. O negócio, como eu falei, é nós não sabermos exatamente para quê serve tudo isso. Tem um pessoal meio maluco, conhecido como artistas, que acreditam que o produto deles não é só pra pendurar na parede, não é para aparecer na TV, não é para fazer bonito pras visitas e combinar com o sofá: é para expressar o mundo, ideias, sentimentos, confusões, tristezas, alegrias. Arte é para mostrar o espírito, é para liberar o que vai dentro do coração. E, enquanto o pato-branquense classe média trabalhador herdeiro de colonos europeu não experimentar isso com o corpo e alma, ela não funciona. Não engrena e não vai dar lucro mesmo!

Entenderam o meu ponto? ctg, igreja, fotografia. Todo mundo faz. Não me admira nada que sejam nossas artes e culturas mais reconhecidas, admiradas, comentadas, frequentadas!

1.3 Então Pato Branco está ótimo em cultura, Sharon, vamos fechar o departamento, não serve pra nada

Poderia até ser, se todos nós fossemos fotógrafos, religiosos e gauchescos. Mas tem muita gente fora disso que sofre (ó eu aqui, a terapeuta socióloga de novo) por não ter suas expressões reconhecidas. Ou melhor, por ter suas expressões ignoradas, renegadas, banidas. Um escultor teve uma estátua linda retirada da praça, provavelmente por seu conteúdo polêmico "ofensor aos bons costumes". Os pintores decoram. Ninguém vai ao teatro. Os músicos que não seguem o sertanejo e o gaúcho fogem ou se conformam. Tinha um grafiteiro, gente, onde foi parar? Escrever é ser cronista do cotidiano e cuidado pra não ofender as Sagradas Famílias! Não tem saída. O pensamento classe média tralalá você sabe o resto é forte demais e a invenção (aquela! que precisa imaginação, que por sua vez precisa liberdade), a invenção não vinga.

E precisa vingar? Talvez não, mas a fuga é dura, sabe? Drogas, bebida, violência, adolescentes grávidas, acidentes de trânsito e de pára-quedas (peguei pesado de novo? poxa...) Será que tudo isso é reflexo de uma sociedade que não dá espaço para o diferente? Será que tudo isso é reflexo de entregar a alma para um papel de trabalhador metódico, controlado, competente, hierarquizado? Será que a exigência diuturna desse papel tira a coragem de abrir o coração para o novo, o outro belo, o belo diferente, o belo vivo, criativo, festeiro, faceiro, o belo gratuito que pode encher a alma? Eu acredito que sim, que aceitar e fomentar toda a arte, todo artista, toda expressão, por mais estranha, imoral, inculta, estrangeira, pagã e economicamente inviável que ela seja... aceitar e fomentar tudo isso ajuda a manter saudável toda a sociedade. Quanto mais gente feliz, mais gente feliz.

É isso! Arte para a felicidade geral da nação! E tenho dito!


Um comentário:

  1. Acho que por menor que seja, por aqui também temos arte, e alguma cultura rs. Só pra comentar, aqui agora temos a portabilidade evangélica, o sujeito muda de igreja no dia só para acompanhar um tal cantor ou cantora gospel da moda. Acho mesmo que o povo se esqueceu o que se faz na igreja. Mas esse é o Brasil...

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