12 de setembro de 2012

Filhas do segundo sexo, Paulo Francis

Outro que comprei por R$ 3,00 na ponta de estoque de Guaratuba. Comprei por ser do Paulo Francis, jornalista que eu admirei muito desde pequena. Achava divertidíssimas as crônicas dele nos noticiários da Globo, adorava a forma dele falar, tudo. Então não vi motivos para deixar o livro lá, esperando outro leitor, por um preço tão convidativo.

É da editora Francis, 2004, 156 páginas. Rápido e rasteiro.

São duas histórias com protagonistas mulheres. As novelas foram escritas a partir de dois contos eróticos que não vingaram. Eu não sabia disso quando comecei a ler e me espantei um pouco. As primeiras linhas do livro, em "Mimi vai à guerra", descrevem um fellatio eficientemente aplicado por Mimi, que aprendeu já em mocinha que os homens ricos fazem de tudo para ficar com uma mulher bonita. Ela está trabalhando duro para trocar os vários "coroas" que a sustentam por um só, Pedro, mas o cara é casado com uma matrona difícil de se deixar divorciar.

Na segunda história, "Clara, clarimunda", cientista social recém-formada desiste da carreira para cuidar das filhas e apoiar o marido, também cientista, que continua o mestrado e o doutorado, com ajuda dela. O casamento deles é de companheirismo, mas a parte "romântica" (lembram? era pra ser um conto erótico) não agrada muito à Clara. Nessa história tem mais reflexões e o final é uma libertação bem divertida, o final feliz de Thelma & Louise.

São retratos de mulheres bem diferentes, e, no final, a impressão é de que a Clara é mais "irreal" que a Mimi. Talvez por a Mimi parecer mais um retrato e a Clara uma idealização. Não sei. Um pensamento da Clara:
"A ilusão do livre arbítrio é a mais poderosa e intoxicante"
E ela fala isso numa conferência de psicanálise, quando o palestrante percebe que ela deu um tapa na perna em certa fala e interpreta como tesão:
"Sexo é bom, ruim, mais ou menos. Não é livre. Tudo tem um preço. Hoje, falamos e fazemos mais do que nos tempos da minha mãe, em que a continência e o silêncio eram a convenção. Pois só foi substituída pela convenção de que somos senhores do nosso tempo. Somos nada. Passamos a maior parte da vida recebendo o que não queremos, fingindo que comandamos quando servimos. Não é tesão, é raiva, o que me resta de individualidade." 
E ela sai mais brava ainda da palestra, porque o pessoal começa a tratá-la como heroína. Eu tenho essa problema (ou dom?) de ver as coisas que acontecem com uma distância. Um pouco como a Mimi, apesar de não levar tão a fundo, parece que a maioria das coisas não são tão importantes, são um pouco ficcionais, interpretações, representações. Já a Clara tem pavor disso, dessa forma de viver sem empatia, sem envolvimento.



Paulo não as julga no sentido de "um homem" ou "vários", mas em termos de reação, eu acredito. Mimi só reage quando não há saída, mas Clara faz da ação e da reação seu jeito de viver. Enquanto Mimi parece alheia a tudo, sempre agindo com a intuição e o corpo (ela mesma acredita ser burra), Clara é a que está sempre consciente, racional, não age sem pensar.

Eu tenho medo das duas.

Quatro estrelinhas, em cinco.


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Mais autores brasileiros:

Trechos de "A um passo", Rosa Amanda Strausz
- "O céu dos suicidas" e "O livro dos mandarins", Ricardo Lísias
Unhas, Paulo Wainberg

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