15 de janeiro de 2012

Noite e dia, Virgina Woolf.

2011, 640 páginas,
Novo Século
Primeiro livro finalizado de 2012 e o primeiro Woolf da minha vida. Talvez seja melhor assim, já que, segundo dizem, é o único livro dela com estrutura normal de romance, história linear, apresentação dos personagens, desenvolvimento, clímax e fim. Então é um bom livro pra uma mãe de um "terrível dois" ler nas férias. Não demanda tanta atenção quanto um modernista "tr00" exigiria.

A história lembra bastante os romances da Jane Austen, solteiros ingleses em busca do amor, passeando em propriedades rurais e tomando chá na casa uns dos outros. Os homens são até bem parecidos, a não ser pelo fato de não serem tão perfeitos quanto Mr. Darcy. A gente até enxerga o Donald Sutherland no patriarca que parece alheio a tudo, mas que aparece no fim da história pra pôr a filha e a sobrinha no caminho certo. Ou não, que, no final das contas, ele é só, como dizem os infames, um mero fornecedor: "Tinha, então, amado a filha para vê-la, assim, levada por essa torrente, para tê-la tomada dele por essa força incontrolável, e ser obrigado a ficar à margem, inerme, ignorado? Oh, quanto a amava! Quanto a amava!"  Não é exatamente o que a gente imagina que Mr. Bennet pensou depois que a Elizabeth finalmente se decidiu?

Os dilemas de um pai de menina...
Só que a protagonista não é a Elizabeth, mas a irmã chata do Bingley, a Caroline. Não se diverte muito com literatura, música, discussões - ou com qualquer coisa, parece. De boa família, sempre impecável, razoável e educada, não pode sair de casa sem se casar, mas tem grandes dúvidas se essa é mesmo a melhor solução para sua vida e divaga, divaga... a divagação é tanta - não só dela, de todos os personagens - que pulei várias páginas. Pelos pensamentos da primeira parte do livro, Katharine Hilbery é muito inteligente e racional, mas insossa e cansativa: um resenhista do goodreads define como "self-absorbd jerk".  Mas ela tem alguns momentos de brilho: quando ri das infinitas besteiras do pretendente Rodney, quando dá belas patadas na tia fofoqueira e principalmente quando senta na mesa dos Weasleys, ops, Denhams e tira de letra. Pintei todo mundo de ruivo naquela família! E eles tem uma gralha velha e manca de estimação. É a passagem mais alegre do livro, quando a gente começa a ver o que esses caras todos viram nela.

E os caras todos também pensam muito nesse livro... "será que seria melhor eu avisar a ela que o cabelo despenteou e a saia está amassada? Afinal, isso não é aparência correta para uma mulher..." Tu tá falando sério, cara pálida? São desse naipe as infinitas besteiras do Rodney. Mas logo Ralph "Weasley" Denham (não sei exatamente qual... ele é apegado ao trabalho como o Percy, mas tem bom humor também e gosta de vários assuntos desconexos - flores, pássaros, política) salva os ingleses: "ah, esse cacho de cabelo voando solto e a saia desordenada me dão um tesão que eu não consigo pensar em nada mais". Opa. Agora sim. Mas é aquele negócio, pensa muito e pouco faz. Eu sou atrasadinha, era assim no segundo ano do ensino médio e perdi uns caras bacanas. Mas agora quem está divagando sou eu.

Uma personagem mais interessante é Mary Datchet. Idealista e batalhadora, enfrenta o mundo e os problemas. Resolve as próprias coisas, independente e decidida. E tem que lidar com os caras todos falando que mulher não deveria se dedicar à coisas como... melhorar a vida das mulheres! E gosta de andar no campo. Aí fica óbvio, ela é a Liz, não a outra. Mas o sumiço dela da metade pra frente do livro é uma tristeza compartilhada por muitos resenhistas... que fim levou Mary Datchet? Encontrou Mr. Darcy? Ou preferiu ser primeira-ministra? Diretora de Hogwarts? Ou tudo isso? Ela parece dessas pessoas que conseguem tudo o que querem. Catzo! Quedê Mary? Todo mundo gostou muito mais dela do que da protagonista, inclusive a própria Katharine.

O melhor do livro está quase no fim... é spoiler, não, relaxem:
"parece, repetiu - que alguma coisa chegou ao fim, de súbito, soltou-se, perdeu a cor, uma ilusão, assim como as que a gente inventa quando crê que ama; a gente imagina, então, o que de fato não existe. É por isso que é impossível que casemos um dia! Sempre a achar o outro uma ilusão, e indo embora, e esquecendo-o, nunca estando seguros de jamais ter gostado mesmo, ou de não ter ele gostado todo o tempo de outra pessoa que não era a gente, o horror de mudar de um estado para outro, de ser feliz num momento e miserável no seguinte"
Ao final, não sei se gostei tanto. Como todos os fluxos de pensamentos, tem coisas muito boas, como as que a Francine separou. E é uma delícia estar em Londres, o clima todo, Shakespeare, escadas, névoa... mas tem partes bem cansativas. Pra recreação. Quando a vontade de ler é muita e o tempo é pouco, ler aos pedacinhos não vai aborrecer tanto... Pra quem tem um "terrível dois" em casa, ou muita coisa pra fazer.

Três estrelinhas. Em cinco.


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Mais resenhas:

A melhor HQ de 1980;
Água para elefantes, Sara Gruen;
Buracos, Louis Sachar;
Preconceito Linguístico, Marcos Bagno;
Minha estante e sir Bernard Cornwell;

2 comentários:

  1. Oi! Obrigada por indicar o blog Virginia Woolf por aqui.

    O livro Noite e Dia é um livro simples e muita gente o considera fraco, eu, particularmente, adoro! É um dos meus preferidos.

    ;)

    Beijos

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  2. Terminei de ler esse livro faz pouco tempo... E sim, concordo plenamente com você! Parece mesmo com um livro da Jane Austen. No começo, achei bem chatinho, mas depois fui gostando. Se bem que a Mary era a melhor personagem, e sumiu! Mas teve uma coisa que eu também achei meio estranha nessa estória; é que as pessoas aparecem do nada... Por exemplo, quem poderia supor que a Cassandra e o Rodney conversaram enquanto a Katharine largava ele sozinho durante aquela viagem? A gente só descobre isso depois, quando já estão trocando cartas. E ao que tudo indica, a Katharine sabia. A mesma coisa com aquele irmão da Cassandra, ninguém nunca tinha ouvido falar dele e depois já era o "primo mais legal de todos", com quem a Katharine poderia conversar, etc. Isso me incomodava às vezes. Mas fora esses pequenos detalhes, é um livro legalzinho.
    Muito boa a sua resenha!

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