27 de julho de 2012

Guest post: O nevoeiro e a esperança

A Cyntia, uma amiga do movimento dos sem-blog, mandou esse e-mail interessantíssimo sobre o filme "O nevoeiro", dirigido por Frank Darabont, baseado num conto do Stephen King. É para quem já viu o filme, tem spoilers seriíssimos. Quem ainda não viu, veja essa resenha de outro amigo.

Eu achei o filme muito bom, mas não tenho essa habilidade toda para descobrir entrelinhas não. 

Então, fiquem como a Cyntia! O Murilo de quem ela fala aí é o marido dela.


"Eu estava comentando com o Murilo hoje que, à parte das questões sociológicas, esse é muito mais um filme sobre "ter fé". E não exatamente fé em Deus, mas fé na esperança.
Se a gente reparar bem, todos os personagens que realmente contam sobrevivem ou sucumbem por conta de sua relação com a fé.
O advogado negro morre porque não tem fé nos homens e no porquê das suas ações. Ele acredita que as pessoas só agem movidas por interesses. No início do filme ele só aceita a amizade do vizinho porque este demonstrou pena pela perda do carrão. Ou seja, para o advogado só um interesse material pode ser compreendido como legítimo. E é por isso que ele acha que existe algum motivo excuso para o pessoal estar inventando a estória dos tentáculos quando eles já estão cercados pela bruma.
A louca fundamentalista também morre porque não tem fé na bondade e no perdão. Ela é incapaz de ver na idéia de Deus um agente para a compreensão entre os seres humanos. Ela só tem fé na punição e é isso que ela recebe no final.
O casalzinho fofo também morre porque não tinha fé no próprio amor. Eles desperdiçam a oportunidade de ficarem juntos mais uma vez, depois de uma vida de hesitação e incerteza, quando deveriam ter transado no vestiário do supermercado.
E por fim a turma que foge com o mocinho morre porque não acredita na Esperança, com letra maiúscula mesmo. Até o menininho não pode sobreviver no final porque demonstra não acreditar na capacidade do próprio pai em salvá-lo (quando ele pede que o pai faça sua promessa mais importante). O pai não morre fisicamente, mas sucumbe ao peso do que fez quando percebe que poderia ter tentado um pouco mais. Os sobreviventes mesmos dizem que "ninguém pode dizer que eles não tentaram" antes de desistirem e se matarem. Na verdade, se eles tivessem fé, poderiam ter tentado só mais um pouquinho.
Quem eventualmente sobrevive é a mulher de cabelo curtinho, porque ela teve fé na sobrevivência dos filhos e na própria capacidade de resgatá-los. 
O Murilo acha que é um filme sobre sacrifício, mas eu acho que é sobre fé e esperança e o diretor só mostra como essa incapacidade moderna de crer nos leva rapidamente ao ódio, à desconfiança, ao medo e por fim à desistência. 
Acho que pode servir de alegoria sobre a sociedade americana moderna, mas na verdade serve pra mais que isso e é uma reflexão sobre a nossa capacidade de acreditar nos outros e em nós mesmos.
O bom mesmo é ser brasileiro e não desistir nunca.
por Cyntia Beltrão, psicóloga, mãe, feminista
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E não é que é, gente?

Muito obrigada à Cyntia por permitir a publicação!

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