24 de novembro de 2011

Cirúrgico

- Fale! Você não queria conversar?
- Eu não queria falar aqui no bar.
- Não temos testemunhas.
- É que eu tinha mil coisas pra dizer. Não faz essa cara de "bobagem de mulher". Tá. Eu resumo. Um exemplo e uma conclusão. É que ontem foi horrível.
- Ontem?
- Na casa do seu pai.
- Mas isso foi hoje...
- Foi ontem. Esse foi o exemplo. A conclusão é que eu não consigo fazer desse jeito, do jeito que você faz.
- Tudo bem, já perdi muita mulher na vida por causa disso. Cadê meu isqueiro? Ei! fogo? - levanta, acende o cigarro e procura uma mesa vazia pra sentar. Senta longe dela. Ela senta junto. Olha pra ela:
- Eu quero minha pimenta.
- O quê?
- A pimentinha, o pingente de vidro.
- Aquilo é uma pitanga...
- É uma pimenta! Tava aqui no colete. Caiu. Quando eu fui falar com o Tiago. É que nem perder uma gravata! Eu preciso achar. - fala, levantando.
- Ei! Você não se importa nem um pouco?
- Eu tô na boa. Pra mim tudo bem. Já estava me incomodando um pouco. Eu preciso ficar sozinho. Eu não aguento nem eu mesmo. Eu estou bem, só quando for agarrar uns caras não faça na minha frente. Vá ficar com eles longe. Senão você e o cara apanham.
- Que merda babaca.
- Não... é brincadeira! Só não "queira" (faz as aspas com os dedos) fazer isso. Só não faça isso de propósito.
Dá dois tapinhas no joelho dele:
- Vou pra casa. Tentar escrever o que o Tiago pediu.
Levanta. Ele declama em voz alta:
- Uma mulher é uma mulher. Qualquer mulher é todas as mulheres.
- Babaca.
- Os cigarros se acendem e se consomem como se fosse sempre o primeiro.





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