15 de novembro de 2011

O que a gente aprende quando o nosso pai está longe da gente


ou

Já posso casar *


Umas das grandes conquistas da minha vida foi ter conseguido trocar, sozinha, a resistência do chuveiro. Era julho. Era inverno. Era frio. Era urgente. Fui até a Casa da Torneira (nome perfeito não acham?), preparada para gastar milhares de dinheiros com uma resistência. Mas nem tudo é tão caro quanto parece e acabei gastando algo em torno de cinco reais. Na loja, encontrei um senhor comprando chuveiro também. Para ele, o inverno estava sendo caro. Era o segundo chuveiro que ele comprava. Antes, já havia comprado três resistências:

- É que lá em casa tem muita criança...

Então. Chegando em casa, desliguei todos os disjuntores da caixa de luz na cozinha, peguei uma cadeira, chave de fenda e que venha o trabalhão! Montada na cadeira, desengatei a mangueira do chuveirinho, desparafusei os fios de energia do conector (isso foi fácil, eu aprendi no CEFET) e comecei a puxar o chuveiro, para separá-lo do cano de água. Mas ele não saía! Puxei, puxei, bati com a chave de fenda pra ver se ia, e nada. Até virei o chuveiro com a parte de cima na minha direção, para ver se tinha alguma coisa "abrível"... Quanta poeira! Depois de limpar, descobri um parafuso de plástico e fui ver o que era. Não era nada que me ajudasse na operação tirar-o-chuveiro-do-cano. Era a parte onde as ligações elétricas são feitas, onde as chaves de ligar e regular a temperatura fazem contato com a resistência. Tá. Que merda. Deixa então eu ligar prá minha mãe...

”- Mãe, eu tô trocando a resistência do chuveiro...
 - Sozinha???
 - É, só que eu não sei como faz para tirar o chuveiro do cano...
 - Eu também não sei, nunca fiz isso...
 - O pai não tá aí?
 - Não, ele está viajando. Eu ligo e digo prá ele te ligar. Aí ele te explica.”

Se na época já tivesse esse
tutorial do Anamaria,
não existiria essa história
Desliguei e sentei no vaso sanitário, desiludida, olhando para a orcaria do cano. Então surgiu a idéia de girar o chuveiro, para ver se era uma rosca que prendia ele no cano e... Bingo!!! Quando meu pai ligou, eu já tinha aberto o chuveiro, e estava lendo as instruções da resistência. Ele deve ter sentido orgulho da filha esperta que consegue abrir um chuveiro sozinha.

Entre tirar a resistência velha, colocar a nova e fechar o chuveiro eu gastei uma meia hora. Alguém com experiência nisso deve levar uns dois minutos... Então eu rosqueei o chuveiro no cano e comecei a conectar os fios. Só que desparafusei sem cuidado nem atenção um dos micro-parafusios da conecção e ele caiu no chão do banheiro (que estava na maior escuridão, já que toda a casa estava sem energia). Eu perdi alguns minutos tateando o chão molhado e desisti, porque lembrei que meu prédio não tinha aterramento e portanto havia um micro-parafuso sobrando no conector que eu podia usar. São seis entradas, cada uma com um parafuso. Três são as do chuveiro (duas da energia e uma terra) e três da energia do apartamento (duas da luz e uma do aterramento, que não existe, e, portanto, sobra um parafuso). Parafuso encontrado, parafuso conectado.

Finalmente (ah... a pureza e ingenuidade dos iniciantes...) liguei o chuveiro (ainda sem energia) para "enchê-lo e evitar que a resistência queime", como indicava a folha de instruções. Levei a cadeira para a sala, guardei as ferramentas, e imaginava que o trabalho estava pronto. Mas que ilusão! Tinha um vazamento entre o cano e o chuveiro, um problema de adaptação entre a rosca do chuveiro e a do cano. Emputecida, desliguei a porcaria do chuveiro, fui buscar a cadeira, desconectei os fios, desrosqueei o chuveiro... aquela molhança toda de novo, um saco.

Conseguimos!!!
Então, o aprendizado com o meu zeloso e esperto pai-prá-toda-obra veio à lembrança, e eu fui buscar minha fita veda-rosca. A fita é super-fina e delicada, e, como ensinou o seu Caleffi, deve ser desenrolada aos poucos, para evitar que se embole toda. Nessa altura eu já estava feliz de novo, porque consegui passar a fita direitinho num trabalho (quase) profissional. Daí foi colocar o chuveiro, os fios e a mangueira do chuveirinho  novamente e ufa! ligar o chuveiro para enchê-lo. Desliguei, corri para a cozinha ligar os disjuntores e pronto!!! Duas horas depois de eu ter saído para comprar a resistência, um chuveiro novinho em folha!!!


Como recompensa, um banho bem quentinho e dois pontos de auto-estima.

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* Texto publicado na quitanda antiga em 2003.

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