27 de abril de 2012

Oriente, Ocidente - Salman Rushdie


Segundo livro de abril e oitavo do ano do Desafio Literário 2012. Minha edição é da Companhia de Bolso, 2011, 161 páginas. O livrinho vai ser libertado em breve, num lugar de patópolis perto de você! Aguarde!

São nove contos divididos em três partes de acordo com o tema, o local ou o estilo:

1. Oriente

Histórias na Índia atual mas com jeitão e sabor de lenda mágica... minha parte preferida. O primeiro conto é uma delícia e me deixou com altas expectativas. Uma moça chega no consulado britânico para a entrevista que vai permitir sua ida à Inglaterra, casar com o noivo. Um "especialista em conselho" se encanta pelos olhos da moça e dá seu conselho, geralmente caro, de graça: ela pode conseguir um passaporte britânico original, de forma rápida, se falar com beltrano e etc etc... ela nega e entra no consulado, enfrentando a entrevista com honestidade. Quando ela sai... o desfecho é ótimo! Os outros dois contos são divertidos também. A forma irônica com que o Rushdie descreve o próprio povo causou problemas pra ele, mas só traz prazer pra gente... Rir de si mesmo é uma benção, e nós (eu) temos muito que aprender...

2. Ocidente

Muita gente gostou dos contos dessa parte, como a Anica, mas eu... médio. Não pela ironia ter mudado de alvo (agora são os ocidentais), mas pelo estilo ter mudado. Uma ironia sobre estilo? Será? Acho que sim, mas eu prefiro a narração simples e saborosa dos primeiros contos a essa espécie de taquigrafia rascunhada que povo gostava de fazer nos anos 90... sem muita lapidação, verborrágico. Chato. As histórias são mal contadas, mas as ideias são boas. Hamlet sob o ponto de vista do bobo Yorick. Um leilão de sapatinhos de rubi representando nossa dependência do consumo que me cheirou muito (MUITO) a Asimov, então curti... médio. Uma especulação sobre como Colombo consegue suas caravelas. Nesse último o bom estilo dos contos começa a reaparecer, como uma montanha russa narrativa.

3. Oriente, Ocidente

Agora a Índia e o Ocidente se encontram, se misturam e a ironia some. Pena. O primeiro conto é sobre dois amigos de faculdade, o indiano contando a vida do ex-colega e depois escritor, inglês. O final também surpreende, como no primeiro conto. A segunda história é uma maluquice sobre espiões que eu não compreendi direito. E a última é a volta do estilo cuidadoso (que bom!), agora não mais engraçado, mas triste e bonito. A história do amor de uma ayah indiana, uma espécie de governanta/empregada e de um porteiro de origem soviética. A história é contada sob o ponto de vista das crianças cuidadas pela ayah, e os apelidos que eles usam para o casal são uma delícia. Mary-Certamente para a ayah, porque ela sempre dizia "Oh-sim-certamente ou não-certamente-não". E Miscelânea para o porteiro, pois seu nome verdadeiro, na língua materna, era de pronúncia complicada aos petizes indianos.

O conto não é bem um romance de formação, mas tem uma pitadinha:
"Aos dezesseis anos, a gente pensa que pode fugir do pai. A gente não está ouvindo a voz dele falando pela boca da gente, a gente não percebe como nossos gestos já espelham os dele; a gente não o vê no modo como nos mantemos de pé, no modo como assinamos nosso nome. A gente não ouve o sussurro dele em nosso sangue."
Esse conto fecha o livrinho muito bem e ele volta a ganhar a estrelinha que perdeu no labirinto do estilo. Acredito que o objetivo do Rushdie era esse mesmo: começar muito bem, mostrando uma forma universal de contar história, que fica melhor com o tempero de cada terrinha. Então ele assusta a gente com a nossa própria invenção mal feita e nossas invenções mal ajambradas, para voltar a ser um tradicional (e muito bom) contador no final do livro. É um pequeno encontro em todos os sentidos: enredo, tema e estilo. Vale a pena, mas faça como eu: leia aos poucos, sem pressa, no tempo que sobrar. Até porque, segundo consta, tem Rushdies melhores.

Três estrelinhas. Em cinco.

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Mais Desafio Literário 2012:


- A jogadora de go, Shan Sa
Unhas, Paulo Wainberg
- A mulher do viajante no tempo, Audrey Niffenegger
Pinóquio, adaptação de Guilhaume Frolet
Clara dos Anjos, Lima Barreto
O rapto das cebolinhas, Maria Clara Machado
Cozinheiros Demais, Rex Stout


Outras resenhas:

Noite e Dia, Virginia Woolf;
A melhor HQ de 1980;
Água para elefantes, Sara Gruen;
Buracos, Louis Sachar;
Preconceito Linguístico, Marcos Bagno;
Minha estante e sir Bernard Cornwell;

2 comentários:

  1. Esses contos da primeira parte parecem ser ótimos, gosto muito dessa mistura do atual com um jeito de lenda.

    Faz tempo que ando querendo ler um livro do Rushdie, mas não sei bem por onde começar.

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  2. Eu também estou toltamente fora do universo de Rushdie, no sentido de que nunca li uma obra de sua autoria. Gostei do que vi e pretendo experimentar. :)

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