10 de fevereiro de 2012

Clara dos Anjos - Lima Barreto

Primeiro livro de fevereiro e terceiro do ano do Desafio Literário 2012. Minha edição é ebook, baixei grátis no site Domínio Público.

Pra quem gosta do livro em papel, no sebo está saindo a partir de R$ 1,00! Uma edição mais elaborada e também crítica, foi lançada na coleção Penguin pela Companhia das Letras, com textos de Sérgio Buarque de Holanda, Lúcia Miguel Pereira e Beatriz Resence. A Cia. também tem uma versão em HQ. Alguns dos desenhos do Lelis, ilustrador dos quadrinhos, estão aqui no post. Outro ilustrador de Clara é o Eduardo Schloesser, mas os desenhos que ele publicou no blog revelam muito do enredo!

Gosto muito dessa imagem. Clara linda
e tímida e o Cassi lá, "sedutor"

Prefácio e aviso: não sei fazer resenha curta!

O pai e a mãe do Cassi sabem 
muito bem quem ele é...
Tinha lido pouca coisa do Barretão. Os contos "Nova Califórnia" e "O homem que sabia javanês" e só. Gostei desses e esqueci do autor. Claro, volta e meia alguém fala dos Bruzundangas e eu penso "preciso ler"! Mas a intenção sempre foi frouxa e acabava esquecendo. Mas então que agora no desafio temos que ler livros com títulos com "nome próprio de pessoa" e só ele. E me lembrei do "Clara dos Anjos".

A leitura correu fácil, ao contrário dos outros que estão empacados esse mês. "Dom Quixote" na tradução dos viscondes, está difícil, pela forma, mas também pelo conteúdo. Devo ter sofrido alguma lavagem cerebral nos últimos tempos... não consigo enxergar humor num velhote maluco que sai atacando pessoas e bichos inocentes achando que são bandidos.  O outro que tentei começar a ler é o "Hannibal" do Thomas Harris. O começo até que foi legal, mas aí ficou tão igual ao filme que perdi a vontade também. Dom Quixote ainda vou persistir, persistir, persistir (musiquinha da Kailan). Mas Hannibal já larguei.
A amiga da irmã dele vai descobrir, 
logo, logo...

Então que terminei rapidinho e gostei bastante. Clara é negra e foi criada debaixo da asa da mãe. O pai é carteiro, ama a filha, mas não tem muito tempo para os cuidados com a menina. Como fica muito presa em casa, ela praticamente só convive com a vizinha, dona Margarida, que a ensina bordados, e dois amigos do pai: seu o padrinho, Marramaque, um velho contínuo aleijado e o Lafões. Pois é o Lafões que inventa de querer trazer para uma festa de aniversário da Clara o Cassi Jones, violeiro e modista.

Pera aí! Cassi Jones? Já ouvi esse nome!

Google que me socorra! Cassi Jones era o personagem do Marcus Winter em Fera Ferida! Ele era filho da Joana Fonn... E também estão na novela a Clara, o pai, a mãe e uma irmã inédita, a Teresinha - vivida pela Camila Pitanga, lembra? Outro personagem da novela que é inspirado no livro é o Ataliba Timbó, que casou com a Ilka Tibiriça, o casal mais amado daquele ano, claro. Com tanta gente boa na cabeça o livro ficou mais divertido. Não é como o Hannibal, que ficou tal e qual, porque o Aguinaldo Silva se inspirou levemente nos personagens e a história segue diferente. Mas, como a novela é de quase 20 anos atrás, 1993, eu não consigo lembrar da cara da Clara... e não tem foto da atriz, Erika Rosa, na internet. Dorga! De qualquer forma, eu imagino a moça assim, uma Sheron Menezes e fica por isso mesmo.
A cidade toda poderia saber,
mas nem todo mundo lê jornal...

Enfim, é uma resenha do livro, não da novela!

Barretão escreve de forma simples e divertida uma história que não é engraçada. É um retrato e um alerta para os problemas vividos pelas jovens negras no Brasil. Apaixonadas pelos rapazes brancos, eram usadas por eles e abandonadas na imensa maioria das vezes. Só cansei um pouco das várias pausas para apresentar os personagens. Explico. Estamos lá, lendo que seu Joaquim, o carteiro, tem uma esposa e uma filha e joga como os amigos. Aí conta a vida do seu Joaquim e dos amigos. Aí o Lafões lembra do Cassi Jones. E conta a vida do Cassi Jones e da mãe dele. Aí o Cassi Jones encontra o Ataliba Timbó e... vida do Timbó. Então Timbó leva uma surra da dona Margarida, a vizinha (isso teve na novela, a dona Margarida era vivida pela Arlete Salles) e... vida da dona Margarida. E vida do dentista, vida do poeta, vida do fulano, do sicrano, do beltrano. Dá pra ver que a intenção do Lima era mostrar uma coleção de gente também, e não só uma tragédia de amor.

Fim da parte sem spoilers. Atenção! A partir daqui a resenha pode ser um pouco reveladora pra quem não leu ainda o livro...

Além dos tipos, todos divertidos e caricatos, o foco do livro é a denúncia, como eu disse, da vida triste das mulheres negras da época. Naquele tempo, quando a virgindade era preciosa e indispensável para um bom casamento, que era tudo o que uma mulher poderia querer, era inclusive lei, e função policial, que o "desviante" casasse com a "desviada". E isso acontecia, se o casal fosse da mesma cor. Mas nem a sociedade, nem as famílias dos rapazes brancos aceitavam casamentos inter-raciais. Até mesmo a polícia afrouxava as coisas pro lado dos rapazes brancos. Então os meninos visavam justamente as negras pros namoricos, porque, se se metessem com uma branca, teriam que casar. Então as pobres moças acabavam sem casamento, por não serem mais virgens, ou mães solteiras... Uma vida triste e sem amparo.

Sonha, Clara...

Essa "moral da história" é escancarada. O gosto de hoje é a sutileza e não o panfleto. Mas tem quem ache necessário por algumas coisas bem na cara das pessoas. Que é preciso criar as meninas vendo os homens como seres humanos e não como príncipes encantados ou heróis de sonho. Que o casamento é uma construção de duas pessoas, uma opção de vida entre muitas e não a finalidade da vida da mulher. Que, às vezes, as maiores juras de amor são mentiras. Para justamente enganar meninas sonhadoras cheias de príncipes e castelos na cabeça. Lima Barreto falou, Lima Barreto avisou...

Rascunhos de duas versões diferentes e incompletas de "Clara dos Anjos" estão nos "Diários Íntimos" do Lima. Esta Clara é criada mais solta. Participa da vida social da cidade. Em uma versão, o primeiro homem dela é um português que lhe doa dinheiro para cuidar da filha em comum. Na outra, mais longa, com muitas passagens sobre escravatura e abolição, seu pai morre e ela começa a frequentar festas sozinha e acaba conhecendo um "adolescente" com quem começa um romance, que é descoberto, mas o pai do menino não deixa o casamento acontecer por ela ser negra.

Três estrelinhas. Em cinco.

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Mais Desafio Literário 2012:


O rapto das cebolinhas, Maria Clara Machado
Cozinheiros Demais, Rex Stout


Outras resenhas:

Noite e Dia, Virginia Woolf;
A melhor HQ de 1980;
Água para elefantes, Sara Gruen;
Buracos, Louis Sachar;
Preconceito Linguístico, Marcos Bagno;
Minha estante e sir Bernard Cornwell;

4 comentários:

  1. Ola! Adorei sua resenha :)
    Eu tinha 3 aninhos qd passou a novela entaum n tinha ideia q existia XD rsrsrs
    Clara dos Anjos eh tão rica em conteudo q mesmo fz uma resenha mega gigante esqueci de comentar essa particularidade do Lima Barreto de começar a contar historia de fulano aí fala de ciclano e de um mundo de gente antes de voltar p a cena em q fulano estava andando pela rua rsrsrs tem hr a gente se perde se n prestar bem atenção XD
    Bjinhos!

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  2. Eu tinha 14 anos, mas não gostava muito da novela. Gostava da Ilka e do Timbó e prestava atenção no fofinho do Murilo Benício, mas só.

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  3. Que legal a resenha! Fica nítido o quanto a leitura lhe foi divertida. O nome Cassi Jones chamou-me a atenção por ser diferente. Nem me atinei para o lance da novela. Também não me lembraria mesmo, pois não a vi...hehehe

    Beijocas!

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  4. O livro é um retrato do pais em sua época.E a muito da vida deste fantastico autor.

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