27 de outubro de 2012

Gen Pés Descalços, volume 1, Keiji Nakazawa


Li "Gen: pés descalços" ainda em 2012, para o Desafio Literário 2012. A resenha só está saindo agora, porque ficou um ano congelada esperando as fotos do livro!!! Se procrastinação matasse... larguei de tirar fotos e vai a resenha com poucas imagens.

Enfim. A edição é da Conrad, 2011. Comprei no Submarino em 2011 ainda, logo que saíram os temas do DL 2012 e vi que tinha HQ em um mês e escritor oriental em outro... é um livro que pode servir pra dois meses e eu já queria comprar a muito tempo.

HQs são meios incríveis de se contar biografias e memórias. As imagens tornam tudo muito próximo de  nós, somos mais empáticos a personagens que tem um rosto, uma família, uma casa, uma rua, vizinhos... Na introdução de Gen, Art Spiegelman tenta uma teoria sobre isso:
"Os quadrinhos são um meio de expressão de conteúdo muito concentrado, que transmite informações em poucas palavras e imagens-código simplificadas. Parece-me que esse é o modo pelo qual o cérebro humano formula pensamentos e lembranças. Pensamos em desenhos. Os quadrinhos têm demonstrado sua habilidade em contar histórias de aventuras e ação ou humor. Mas a pequena escala das imagens e a franqueza desse meio, que tem algo em comum com a escrita, permitem aos quadrinhos um tipo de intimidade que também os torna surpreendentemente adequados à autobiografia".
Não é à toa, então, que os graphic novels mais aplaudidos sejam biografias ou memórias. Persépólis da Marjane Satrapi, Maus do Art Spiegelman, Gen, Ao Coração da Tempestade do Eisner e quase tudo do  Joe Sacco, do Robert Crumb... Outros quadrinhos muito legais não são biografias, mas são geralmente centradas em um personagem e contam sua vida. Porque os quadrinhos facilitam a empatia e nos colocamos mais facilmente no lugar do protagonista. Do herói. Quadrinhos são a mídia perfeita para o mito do herói.

Eu acho.

Keiji Nakazawa
Gen é um mangá. Eu tinha um pouco de preconceito com mangá, até ler "Na prisão" do Kazuichi Hanawa (memórias!) e entender que mangá é só quadrinho de trás pra frente. Acostumando com o modo de ler e com as expressões estranhas e exageradas dos personagens a leitura flui tranquilamente.

Gen Pés Descalços traz a história de um menino, Gen, sobrevivente de Hiroshima. A história é baseada na vida do próprio Keiji. No primeiro volume, "O nascimento de Gen, o trigo verde", conhecemos sua família, grande, cinco filhos, pai e a mãe, esperando o sexto filho. Quem já leu histórias de guerra (a minha primeira foi "Éramos seis", Maria José Dupré, da Coleção Vagalume) está familiarizado com algumas situações, como a escassez de comida, o militarismo obrigatório, a paranoia que toma conta de todo mundo e torna a relação com os vizinhos complicada. No caso da família de Gen é pior ainda, pois o pai dele, o sr. Nakaoka, é contra a guerra e faz questão de expressar sua opinião. A família começa a ser tratada por "antipatriota" e a sofrer também por conta disso. Muito poucos vizinhos os ajudam... e a família que tem que viver com o que consegue.

[A partir daqui, ATENÇÃO! Eu conto algumas coisas mas sobre a Segunda Guerra Mundial que quem ainda não conhece ou estudou pode considerar spoiler do livro.]

Uma das partes mais tocantes é quando o irmão mais velho de Gen, Kouji, resolve se alistar aos 17 anos, antes da idade obrigatória. Pai e filho tem uma discussão séria. As partes que narram o treinamento de Kouji no exército fazem a gente pensar que não importa o país ou a ideologia... muita coisa é igual. Quem assistiu "Nascido para matar" (Full Metal Jacket) ou a série "Banda of Brothers" vai perceber que em todo mundo é a mesma coisa: um desprezo nojento pelo recruta, pelo soldado raso, a hierarquia idiota, que não é baseada em talento ou experiência, mas em posição social. Uma das partes mais interessantes é quando Kouji, ao se alistar, conhece pilotos kamikazes.

As partes mais tristes da guerra são contadas sem rodeios, como o suicídio de mulheres e estudantes quando as tropas de suas cidades são vencidas, com medo dos americanos ou em honra ao imperador. O bombardeio atômico também é retratado, como todo o horror que a gente imagina que seja... mas eu não tenho coragem de ver aquelas imagens de novo, assim como não gosto de ver fotos e imagens de qualquer guerra. Como a família de Gen é atingida, é como se nós estivéssemos lá, sofrendo com ele. Muito difícil reler esse trecho...

Os primeiros quatro volumes
da série

É uma grande e triste história, contada de forma simples pelos olhos de um menino. Eu me sinto um pouco culpada por gostar do livro, por tratar dele como um produto pop. A gente se sente estranho lendo tanta tragédia. É como se a gente não devesse estar ali. É um pouco constrangedor, como se estivéssemos cutucando feridas ou como essas aglomerações que se juntam pra ver os acidentes de trânsito... é estranho. Mas é necessário, pela importância histórica do que o Keiji Nakazawa e muitas outras pessoas presenciaram, e ainda presenciam, nos momentos de guerra.

Guerra não, gente, guerra não... Nenhuma guerra vale a vida de alguém...

Cinco estrelinhas. Em cinco.
(já li também o volume 2 e é tão bom quanto o primeiro... valem cada centavo e minuto que você tiver disponível!)

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Mais HQs aqui.

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