31 de outubro de 2012

Maus, Art Spiegelman

Hoje vou juntar dois memes num post só. A pergunta de hoje do MLd1M, do Happy Batatinha, é:


Qual o livro que você leu esse ano que mais gostou? Fale sobre ele.

Eu já sabia que seria o Maus, do Art Spiegelman, antes de começar a ler. Quando comprei, em dezembro do ano passado, eu já sabia. Guardei pra ler esse mês, pra casar com o tema do Desafio Literário, e não me decepcionei, gostei muito. Mas, ao mesmo tempo, nunca me senti assim em relação a um livro: não sei dizer o que eu sinto!

  

Mais gente, pelo jeito, ficou no impasse, como eu. "Maus" ganhou o Pulitzer em uma categoria especialmente criada para ele, pois o comitê de premiação não sabia se o incluía em ficção ou em biografia... e eu me senti assim também. "Maus" é inclassificável tanto quanto é bom. Bom pra carvalho.


É o quinto livro do tema "graphic novel" e vigésimo primeiro do ano do Desafio Literário 2012. A edição é da Quadrinhos na Cia, 2009. Comprei junto com o "Gen: Pés descalços", ano passado. Aproveitei o desafio pra comprar dois livros que queria ler há muito tempo.

É a história impressionante dos pais do Art, Vladek e Anja, sobreviventes do holocausto. Traz detalhes que eu não vi, ainda, em outra história sobre esse período. Assustador, triste, forte, importante, necessário, incrível. O fato da história ter sido contada em quadrinhos não ameniza ou agiliza a leitura... foi a primeira HQ que eu li devagar na minha vida.

"Meu pai sangra história"
título de uma parte

A suástica.
Art escreveu e desenhou a história a partir de entrevistas que gravou com seu pai. Vladek contou tudo, sem minimizar nenhum detalhe. Em "Maus" a gente acompanha também os dias das entrevistas a vida de Vladek, já bastante idoso e um pouco doente, e de Art nos Estados Unidos. É uma relação de pai e filho bem comum, com problemas e divergências. Às vezes a gente fica com raiva do Art por ser tão rude com um senhor que já sofreu tanto. Mas quem nunca foi rude com os pais? A gente tem que lembrar que, antes de ser judeu, sobrevivente, lutador, para Art, Vladek é seu pai.





Tudo é triste, inclusive o "final feliz", que não é tão feliz. O holocausto deixou marcas fundas em todos os sobreviventes. Vladek e Anja tiveram um filho antes do Holocausto, Richieu.


A preocupação com as crianças era constante... como cuidar dos mais frágeis na guerra?



Acho que a parte mais difícil, importante e inacreditável do livro é a quantidade imensa de pessoas que vão morrendo... alguns tem nome, história, outros são anônimos. Alguns tentam sobreviver e outros se entregam, não faz diferença... como nessa parte da história, em que Art conversa com seu psicólogo sobre seu pai. Então:


"Você admira seu pai por ter sobrevivido?"
"Claro. Sei que ele teve sorte, mas tinha uma cabeça incrivelmente alerta e inventiva..."
"Então considera admirável sobreviver. Então, não sobreviver não é admirável?"
"A-acho que estou entendendo. Se vida significa vitória, morte significa derrota."
"É. A vida toma o partido da vida, e as vítimas levam a culpa. Mas não foram os melhores que sobreviveram ou morreram. Foi aleatório! - suspiro - Não estou falado do Maus, mas pense em todos os livros escritos sobre o Holocausto. E daí? As pessoas não mudaram. Talvez precisem de um novo Holocausto, maior ainda "
Qualquer um poderia morrer a qualquer momento. Vladek esteve duas ou três vezes na mira da arma de guardas que matavam por puro prazer e se safou com subornos ou distrações. Foi espancado, passou fome, teve febre tifoide, trabalhou duro, chorou, sofreu, se escondeu quando conseguia. E sobreviveu, mas muitas pessoas que fizeram o mesmo morreram. Muitas.

É uma lição para a humanidade, que ainda não aprendemos... muitas pessoas estão morrendo hoje, em conflitos na África. A gente sabe, lê as notícias, mas estamos impotentes...

Aliás, esse sentimento de impotência frente ao sofrimento dos outros tem andado comigo... e volta e meia ele cala fundo e me deixa triste... eu tento esquecer dele um pouco e tentar fazer alguma coisa boa para alguém, mesmo que seja aqui, em Pato Branco, onde (acredito) ninguém sofra no nível que o Vladek sofreu. Mas também, não podemos medir sofrimentos. Nenhuma tragédia é pior do que a outra.

Acho. Não sei. Dúvida é tudo o que fica quando a gente termina o livro.

Por quê? Como foi possível? E ninguém fez nada? Como deixaram? Como "nós" deixamos? Como tem gente que diz que tudo isso foi mentira? E como tem gente que acredita? Como evitar que aconteça de novo?

Não sei!!!

Cinco estrelinhas e menção honrosa. Em cinco.

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Mais HQs aqui.

O Meme Literário de Um Mês 2012 é proposto pelo blog Happy Batatinha. Veja lá as regras e as perguntas para o mês inteiro.

Vocês que estão vindo de lá, se quiserem conhecer melhor a quitanda, tenho resenhas de livros para público adulto e infantil.

Aqui, as outras respostas do MLd1M 2012.

E aqui, as minhas respostas do MLd1M 2011.


3 comentários:

  1. Sharon, esta é uma das hq's que quero muito ler, ela tem aqui na biblioteca da cidade, então vai se de lá que vou pegar. Um amigo leu há um tempo e também ficou nessa, dizendo que gostou mas não sabia direito exemplificar porque, disse que não conseguia, só lendo para sentir.

    Excelente resenha, me atiçou.

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  2. O que mais dói é saber que holocaustos acontecem ainda hoje... a Palestina é só um exemplo. Na África tem mais também. E continuamos sem fazer nada.

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  3. eese eu ja li... e posso dizer com seguença que é um dos melhores livros que ja li..não só pela visão detalhada que o Art Spiegelman, nos forneçe da guerra e da crueldade, mas também pelo drama famíliar em que vive, e sem dúvida a determinação de viver de Vladek...um livrão!

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